Quando se lança um olhar observador sobre o Esperanto como instrumento de comunicação por cima das barreiras lingüísticas, três perguntas afloram em nossa mente:
Seguramente não responderei a essas perguntas. Apenas apresentarei minha opinião, estritamente pessoal, sobre tão complexo tema, sem pretender oferecer respostas prontas e acabadas impossíveis num campo de estudo onde se chocam considerações de natureza política, religiosa, lingüística, cultural enfim.
São 116 anos de ativa existência do Esperanto como língua de uso geral e internacional, como trabalho de recuperação do sentimento de humanidade perdido pelo ser humano há milênios atrás. Tempo esse contado desde o lançamento em julho de 1887, da brochura intitulada: "D-ro Esperanto Internacia Lingvo. Antaŭparolo kaj Plena Lernolibro (por Rusoj).Varsovio, Tipo-Litografejo de H.Kelter, str. Novolipie n-ro 11 1887- kun la devizo:
"Por ke lingvo estu universala, ne sufiĉas nomi ĝin tia."
A simples observação mostra que, ao lado de sua lenta e constante difusão, expansão e radicação na comunidade mundial, vive o Esperanto sob o fogo constante e certeiro de opositores, na sua maioria inconseqüentes, que deixam transparecer nos seus ataques nada mais que um serviço prestado sob condições e remuneração determinadas e previamente ajustadas
"dize-me o que queres contra o Esperanto e dir-te-ei o preço a pagar pelo serviço"
Qual a motivação que conduz pessoas a criarem argumentos falazes e repetitivos até à exaustão, para afirmar que o Esperanto não existe, não pode existir, é contra a natureza humana; atenta contra a história dos povos, contra sua formação cultural, não tem estrutura natural; não possibilita traduzir os mais profundos sentimentos do ser humano, quer por via da bela arte poética, quer pelo discorrer da boa prosa; quer no campo das profundezas da alma e dos sentimentos do ser humano, quer no âmago de suas dúvidas, perquirições e divagações em busca do conhecimento científico.
E, no entanto, o Esperanto cumpre a finalidade para a qual foi criado como que indiferente a essas argumentações vazias, despropositadas, capciosas, verdadeiras sandices.
Com passos, ora curtos, ora mais longos, caminha inflexível e cumpre o seu objetivo, pouco influenciado no seu progresso contínuo se o mundo fecha os olhos para não ver a perda inestimável de tempo e recursos materiais e, os ouvidos, para não ouvir argumentos sensatos, fundados na realidade vivida, no desenvolvimento diário dos fatos.
Certo, não pode ser gratuita tanta oposição superficial, destituída de embasamentos lógico, fático e científico. Há que ter um fundo comum, um lastro sobre que se assenta e se lança continuamente ao ataque, como a cumprir e atender a ocultas necessidades, mais reais do que se possa a princípio imaginar. Uma coisa é facilmente perceptível: não se trata de argumentos fundados em profundos e científicos estudos, sociológicos ou língüísticos. Nem tampouco em dados colhidos no exame da vivência prática do Esperanto.
Uma constante é que os pseudocientistas nada conhecem sobre o Esperanto, como fato social ou como fato lingüístico. Na sua maioria nunca tiveram qualquer contato anterior, por mais superficial que seja, com o Esperanto.
Só uma coisa os ataques realçam: o serviço está pago, deve ser feito, não importa se os argumentos são falsos ou verdadeiros; é preciso expô-los. Há órgãos de divulgação de plantão e sincronizados para publicá-los sem limitações.
Ainda no período gestacional o Esperanto experimenta o primeiro ataque contra sua existência. Uma tentativa frustrada de aborto.
A destruição pelo pai de Zamenhof dos manuscritos relativos ao Esperanto produto de muitos anos de sério labor tem historicamente como motivação apenas o amor ao filho. Atender avisos de amigos sobre o possível desequilíbrio mental que a idéia de criação de uma língua neutra internacional provocaria no seu filho.
Considere-se porém que Marko Zamenhof, seu pai, "estis instruisto de modernaj lingvoj...." (Privat, Historio..., pago 22). Sabe-se que ele ocupou cargo oficial, além de professor de línguas, no governo czarista da Rússia. Foi censor para as línguas hebraica e iídiche. Não se tratava portanto de homem inculto, preocupado com o futuro de um filho que caminhava muito à frente do poder de compreensão de seu pai. Não devia ser ele homem facilmente influenciável por (infundados? Talvez nem tanto) temores de amigos.
Afirma Privat que se pode ajuntar alguns detalhes à carta de Zamenhof a Borovko, sobre a origem do Esperanto, como, por exemplo:
"Ĝis 1878 ŝajnas, ke lia patro aprobis lian laboradon por lingvo internacia, sed post..." (obra citada, p. 31).
A Rússia desde o século XV, ou mesmo antes disso, já se apresenta como uma potência dominadora de outros povos e nações; esmagadora de suas culturas e por conseqüência de suas línguas. Ucranianos, Georgianos e outros povos foram sem piedade esmagados, submetidos, humilhados e privados oficialmente de suas nacionalidades, de suas culturas e principalmente de suas línguas.
Note-se que a um povo dominador, interessava ontem, interessa hoje, interessará amanhã e sempre esmagar todo e qualquer indício de nação, de povo; eliminar toda existência de um bloco maior ou menor de pessoas com uma identidade própria assinalada por suas manifestações culturais, religiosas e particularmente pelo uso comum de um instrumento de comunicação passado de pai para filho no recesso do lar, ao longo de gerações e criadora do misterioso e belo poder de transmitir de um para o outro seus mais íntimos sentimentos.
Não se trata aqui de um regime político, de uma ideologia política, impondo seus princípios a povos dominados. Isto é um detalhe apenas temporal, conjuntural que não se examina aqui.
O fato gerador da perseguição à língua nativa, à "gepatra lingvo" é antes de tudo uma necessidade imperiosa do povo dominador. Não se submete aos princípios de valoração pelo juízo do bem ou do mal. É uma necessidade vital de manter sob rígido controle o povo dominado e a língua é o instrumento perfeito para o exercício da plena dominação. O dominador fala a sua língua com segurança, absoluta fluência independente de seu nível cultural, expressa todos os seus sentimentos sem dificuldades e, mais importante, ele sempre compreenderá o dominado que, por mais que lute por adquirir perfeição e naturalidade no uso da língua dominadora, jamais o conseguirá, se comparado com o nativo, com aquele que a tem como língua-mãe.
Depois de adquirida "no berço" a língua nativa (seja o latim, o russo, o inglês, o português, o guarani, o gascão etc ) ela assume a condição de parte integrante do ser na plenitude de sua individualidade, identificando-o como pertencente a um grupo determinado de pessoas detentoras de uma grande série de atributos comuns. Dir-se-ia que é um identificador grupal, uma marca de sua consangüinidade, marca indelével de sua nacionalidade, de sua raça, da posse de uma herança comum de seu povo. É como, se ao nascer, o indivíduo trouxesse em branco, na sua estrutura cerebral, o local onde se gravaria a língua materna, e só ela, que o irá fixar àquela comunidade onde despontou para a vida e, após essa fixação, que se produz ao que parece, a partir da fase de aleitamento, todo o conhecimento que for adquirido posteriormente, será arquivado em local diverso daquele privativo e exclusivamente destinado à língua, não por acaso chamada de língua materna, e que integrará aquela personalidade para sempre.
Mera divagação, queridos samideanos, sem nenhuma base científica.
O Esperanto nasce em 1887 trazendo com o projeto de "internacia lingvo" a idéia de língua da fraternidade, da união dos povos por cima das barreiras lingüísticas nacionais. Na verdade no projeto já estava contido, desde o início, sua interna idéia, como definida por Zamenhof. Mostrarei isso mais adiante. Mas esse aspecto da língua somente se torna claro após o Congresso de 1905, portanto, 18 anos após o lançamento do Esperanto. Após aquele Congresso, Zamenhof decidiu publicar suas idéias a respeito de uma religião universal. Tenha-se em conta, porém, que no encerramento do Congresso ele apresenta o poema: "Preĝo sub la Verda Standardo".
Assim define Zamenhof a "Interna Ideo" do Esperanto.
"La Interna ideo de Esperanto, kiu havas absolute nenian devigon por ĉiu esperantisto aparta, sed kiu, kiel vi scias, plene regas kaj ĉiam devas regi en la esperantaj kongresoj, estas: sur neŭtrala fundamento forigi la murojn inter la gentoj kaj alkutimigadi la homojn, ke ĉiu el ili vidu en sia proksimulo nur homon kaj fraton."
Já em 1905, no 1º Congresso Universal de Esperanto, em Boulogne-sur-Mer, 18 anos após sua apresentação pública, Zamenhof diz:
"Al vi (potenca senkorpa mistero) ni ne venas kun kredo nacia, "
...
"Ni staras nun, filoj de l' tuta homaro, "
...
"Ce Via altaro."
"Homaron Vi kreis perfekte kaj bele,"
...
"Ni juris labori, ni juris batali,
...
"Por reunigi l' homaron."
("Preĝo sub la Verda Standardo" Lazaro Ludoviko Zamenhof publicado em 1905, após a abertura do Primeiro Congresso de Esperanto, em Boulogne-sur-Mer Esperanto Modelo, págs. 92 e 93. Os destaques são meus)
Esse detalhe estabelece a diferença entre o Esperanto e todos os anteriores projetos de língua internacional e, ao mesmo tempo, lhe assinala, para os detentores do poder em todos os tempos e lugares, como instrumento perigoso, destinado a integrar a humanidade em uma só família o ser humano por meio de um instrumento de comunicação direta, sem interferência, dispensando tradutores e intérpretes. Veja-se:
"En la plej malproksima antikveco, kiu jam de longe elviŝiĝis el la memoro de la homaro... la homa familio disiĝis kaj ĝiaj membroj ĉesis kompreni unu la alian... tiu fratoj... disiĝis ŝajnis por ĉiam en malamikajn grupetojn... "
(Parolado en la unua kongreso Esperanto Modelo, paĝo 86)
"... en nia kunveno ne ekzistas nacioj fortaj kaj malfortaj, privilegiitaj kaj senprivilegiaj, neniu humiliĝas,...ni ĉiuj estas plene egalrajtaj; ni ŭiuj sentas nin kiel membroj de unu nacio, kiel membroj de unu familio..."
(Parolado en la unua kongreso Esperanto Modelo, paĝo 86 destaquei os trechos).
"Baldaŭ komenciĝos la laboroj de nia kongreso, dediĉita al la vera fratiĝo de la homaro."
(Parolado en la unua kongreso Esperanto Modelo, paĝo 92).
E o passar do tempo viu o Esperanto expandir-se, tornar-se conhecido no mundo inteiro. aproximar pessoas, raças, nações, religiões e línguas diferentes.
Ao mesmo tempo, o Esperanto gerou e suportou perseguições autoritárias e violentas na Bulgária, Romênia, Iugoslávia, Hungria, Polônia , Portugal, Espanha, Itália, na 2ª e na 3ª décadas do século XX , quando apenas tinha cerca de 33 anos.
Na 1ª década do século XX com apenas 13 anos registram-se perseguições na Ásia: China, Japão, Coréia, Taiwan.
Convém lembrar, para se ter uma idéia de tempo, que a língua inglesa é dividida para estudo em três grandes períodos:
São cerca de 16 séculos = 1600 anos de existência da língua inglesa.
O Esperanto já tem l século = 100 anos (isto é, caminha para 117 anos), mas falta muito tempo para uma comparação com a existência do inglês.
O pensamento anarquista percebeu com muita propriedade a proximidade, os pontos aparentemente comuns entre sua filosofia política e o ideal esperantista de reunificar a família humana por cima das diferenças culturais, notadamente nacionais e lingüísticas. Apossou-se do Esperanto como um instrumento que completava seus objetivos, sob a divisa:
"Primeiro anarquistas e depois esperantistas " - Atribuída a Lanti.
e quase o transformou em seu idioma oficial. Mais tarde Lanti inverteria essa divisa, premido por conjunturas políticas. Fato é que usou amplamente o Esperanto, não só como veículo de divulgação e propaganda de sua filosofia, mas sobretudo como língua de trabalho.
Destaca-se nesse cenário, a feroz perseguição do nazismo ao Esperanto.
Aparentemente, ou externamente, fundada na origem judaica do Esperanto essa perseguição desvairada escondia seu verdadeiro motivo, na realidade em nada diferente de todas as demais ações perseguidoras.
Por volta de 1935 (em 1933 Adolf Hitler assume o comando da Alemanha) aparecem os primeiros sinais de hostilidade oficial ao Esperanto. Ela se agravará com o correr dos anos. Documento do Ministério para a Ciência e Educação destaca que
"La flegado de artefaritaj mondhelplingvoj kiel la lingvo Esperanto ne havas lokon em la nacisocialisma ŝtato. Ilia uzado kondukas al malfortigo de esencaj valoroj de nacia ecaro".
Em outro documento lê-se:
"inter la judpacifisma celado de la 'interna ideo' de iu Zamenhof kaj la pacvolo de nia Gvidanto ekzistas rase kondiĉita kaj tial abisme profunda kontrasto"
Esses fatos me convenceram de que o Esperanto é de fato violentamente perseguido desde o seu nascimento em 1887.
A posição do Esperanto no torvelinho que sacudiu a Rússia dos czares, a partir da revolução de outubro de 1917 criadora do Estado que por cerca de 70 anos conduziu com mão de ferro a política dos povos soviéticos e espalhou a cizânia, o terror, a inquietude, a desestabilização de nações e governos pelo mundo, dá bem a mostra de como o Esperanto pode ser utilizado enquanto serve aos interesses de um povo dominador para espalhar suas crenças e objetivos. Assim foi o caso, da idéia de uma revolução socialista mundial. O Esperanto, neste caso, apresentava atributos que o colocava em situação privilegiada em relação a outras línguas, especialmente o russo de reconhecida dificuldade para propagação, não obstante o esforço feito pelos comunistas e seus simpatizantes no mundo inteiro para sua aceitação, disseminação e utilização como língua internacional. As qualidades do Esperanto, de fácil aprendizagem em curto espaço de tempo, além do custo zero, facilitariam a imediata propaganda da idéia da revolução socialista mundial apregoada com fervor pelos comunistas naquela época.
Nesse contexto histórico que compreende o período de 1917 a cerca de 1926, o Esperanto é largamente utilizado pelos teóricos e propagandistas do socialismo marxista criando-se para o fim Entidades específicas dentro da União Soviética, sem contudo se tornar uma língua oficialmente reconhecida pelo Estado soviético. Um comportamento aparentemente contraditório, mas conforme aos objetivos do expansionismo soviético que reservara para o russo o papel de língua internacional no momento da vitória e consolidação da revolução socialista.
A partir de Stalin, cerca de 1926, o enfoque da política soviética com relação à propagação da ideologia comunista pelo mundo passou por violenta modificação interna e em lugar da revolução mundial continuada, o Estado Soviético passou a defender a teoria da viabilidade de construção do socialismo em um só país o que vale dizer, quando a União Soviética passou a cuidar só de si e a lutar por se transformar numa grande potência militar capaz de fazer frente aos Estados Unidos, o Esperanto começou a perder o interesse oficial e logo em seguida passou a ser violentamente perseguido inclusive com a morte de eminentes esperantistas de então, ora nos campos de concentração na Sibéria, ora por fuzilamento, como traidores da pátria socialista. Já então as autoridades soviéticas não viam com bons olhos a possibilidade de os cidadãos soviéticos se comunicarem direta e livremente com outros povos e darem informações da vida difícil vivida no dia-a-dia pelos cidadãos soviéticos com relação às liberdades fundamentais do ser humano, como também quanto às necessidades básicas de alimentação, vestimenta, moradia e saúde, precariamente atendidas no estado dito socialista.
Era a hora de fechar as portas à comunicação direta, livre, e não de abri-las com um instrumento da magnitude do Esperanto. As autoridades soviéticas sabiam disso muito bem e não trepidaram em fechar as portas ao povo e perseguirem o instrumento mais apto para essa atividade de natureza humanista o Esperanto.
O Esperanto torna-se então a língua de espiões e inimigos da pátria socialista, tanto de fora, como de dentro da União Soviética. Era chegado o momento de persegui-lo implacavelmente, pelos danos que poderia causar ao Estado socialista, este perigoso conceito de fraternidade universal, de família humana, de irmãos oriundos de um só Criador:
"Homaron Vi kreis perfekte kaj bele,
Sed ĝi sin dividis batale;
Popolo popolon atakas kruele,
Frat' fraton atakas ŝakale."
(Diz o poeta e humanista, L.L.Zamenhof, em Preĝo sub la verda standardo 3ª estrofe).
Apresentadas de modo ligeiro, imperfeito e impreciso, essas considerações sobre as constantes perseguições sofridas pelo Esperanto, posso dar a minha resposta à 1ª pergunta que iniciou essa exposição.
Sofre realmente, o Esperanto, ao longo do tempo, uma intensa e constante perseguição?
Sim. Respondo eu. O Esperanto sofre, desde antes de sua publicação oficial e até os nossos dias, intensa perseguição sob os mais diversos pretextos.
Que motivos podem conduzir pessoas, povos e nações a tal comportamento?
Por que eu digo que o Esperanto gerou essas perseguições?
De fato, eu penso que o problema não tem absolutamente origem lingüística. Não parece ser preocupação das camadas dirigentes se a língua tem gramática mais simples, ou não. Se seu vocabulário é reduzido e dispõe de um processo prático de formação de outras palavras necessárias à comunicação, ou se precisa de um Aurélio ou de um Webster.
O problema das perseguições tem profundas raízes políticas.
O conflito do Esperanto com as elites dirigentes das sociedades de todas as nações é essencialmente de natureza política.
É decorrência da filosofia imanente ao Esperanto, introduzida pelo seu criador, no ato de sua criação. Filosofia que conduz fatalmente ao entendimento objetivo de extinção, gradual talvez, mas mesmo assim, do desaparecimento final de nação no sentido que se dá hoje a essa palavra, a esse conceito.
Nação é divisão. É conceito segregador, excludente, discriminante. Ou existe nação, divisão em grupos com características próprias, definidas, diferente de outros grupos e a língua é a principal dessas características - ou existe uma família humana, por sobre essas divisões, que agrupa ou agrupará a todos os seres humanos independentemente e por cima dessas peculiaridades. Sem dúvida essa família humana terá uma língua de comunicação direta, sem necessidade de intermediários, de tal modo que qualquer um, a qualquer tempo e sobre qualquer assunto possa diretamente tratar com o outro, sem intérpretes.
Isto tem sérias implicações e conseqüências profundas no âmbito dos sistemas de poder que governam e dirigem cada nação, cada povo, cada Estado.
Não se deve desconhecer, ou fazer vista grossa a esse aspecto importante, quando se trabalha pelo Esperanto.
É inerente ao conceito de Nação o de supremacia, de sobreposição sobre outras nações. Esses atributos próprios e cultivados em todas as manifestações de Nação, nacionalidade, nacionalismo, aparecem com relevo até nas competições ditas esportivas.
Daí ao conceito de Nação, Povo, Raça superior, privilegiada, ungida por vontade divina do poder de submeter outros povos, nações e raças; com o poder de ditar sempre o que está certo ou errado; o que é conveniente, ou não, para outros povos, é caminhar só um passo; um curtíssimo passo, infelizmente só perceptível para a maioria dos seres humanos quando já é bastante tarde e sua correção exige dor, sofrimento, sangue, grandes perdas humanas, além da enorme destruição de bens materiais e profundo desgaste econômico.
O homem seria antes de tudo o ser humano, antes de ser alemão, brasileiro, congolês, norte-americano, angolano, alemão, russo, azerbaijano ou o que seja.
O Esperanto propõe-se a fazer a reunificação da humanidade como irmãos, como membros de uma família mundial, os quais se entendam, compreendam uns aos outros diretamente, sem intermediários.
É um conceito por demais perigoso se olhado do ponto de vista político, sem a ingenuidade, e até certa leviandade, com que se costuma colocar o problema no ambiente esperantista.
Estão em jogo assuntos ligados ao poder e à segurança do poder. Os dirigentes das nações, os chefes de Estado, aqueles que representam e corporificam os interesses das elites dirigentes das sociedades, por todo o mundo, não podem de fato e de direito aceitar tal ideologia.
Contraria seus mais sagrados princípios. Extingue inclusive a sua razão de ser como classe dominante e dirigente.
Seca a fonte de onde nasce o fluxo constante de nações poderosas, dominantes, de um lado, e cria, do outro lado, os estados vassalos, tributários, sustentadores das riquezas, do poder, e do bem estar dos povos dominantes.
A língua em si não faria tanto mal. Se Esperanto, se Volapük, se Ido etc. pouca celeuma provocaria, é óbvio. Línguas diversas existem em todo o mundo e desaparecem igualmente sem deixar marcas mais profundas na civilização mundial. Tentativas de língua internacional, foram muitas.
Diversamente, a filosofia de uma família mundial, de um sentimento de fraternidade universal, de uma ideologia de que somos todos iguais, de que os valores humanos prevalecem sobre o particular, sobre o excludente, sobre os valores nacionais, não tem aceitação pacífica nas sociedades atuais, mesmo fora das camadas dirigentes das sociedades. O ser humano, no seu estágio cultural atual não está preparado para a compreensão e muito menos a prática desse ideal.
Na realidade a conotação subversiva de tal filosofia é evidente, perigosa e desagregadora do conceito dominante de nação, nacionalidade, com o qual se pretende ocultar, por conveniência e hipócrita convenção, o sentimento de raça.
Mais uma vez recorremos ao belo poema "Preĝo sub la verda standardo":
"Ni inter popoloj la murojn detruos,
Kaj ili ekkrakos kaj ili ekbruos
Kaj falos por ĉiam, kaj amo kaj vero
Ekregos sur tero".
Os dirigentes políticos no mundo inteiro não perdoam essas manifestações universalistas, esses sentimentos de fraternidade universal. Já escoimaram o pensamento liberal da idéia de fraternidade contida nos princípios da Revolução Francesa. Não irão agora aceitá-la e praticá-la por amor ao Esperanto. A "Interna Ideo" do Esperanto contraria idéias e planos de expansão e domínio, contraria os princípios filosóficos de todos os governantes de povos dominantes, ex-dominantes e candidatos a dominantes de outros povos, nações e culturas mundiais. Ela, a idéia interna, barra o florescimento da idéia de povo privilegiado, povo superior dotado de requisitos especiais, armado com o direito divino para dominar, submeter, esmagar, destruir povos e nações não enquadráveis no conceito de raça superior.
Não adianta ficar perdendo tempo com jornalistas e lingüistas tentando convencê-los de coisas que não estão interessados em conhecer e que, tomando conhecimento, possam afetar-lhes diretamente o pão de cada dia.
Deve ser profundamente realista no trato dessa matéria se de fato se quer trabalhar pelo Esperanto ao invés de querer aparecer nas colunas.
Logo, força é concluir, respondendo à 2ª. pergunta, que existe uma base comum para a perseguição ao Esperanto. O modo de apresentá-la é questão circunstancial, ajustável às diversas conjunturas das realidades sociais, econômicas e políticas dos Estados e do tempo em que se manifestam.
Essa realidade já estava presente no incidente da queima dos originais dos trabalhos de Zamenhof, por seu zeloso pai. Por trás do amor paterno estava a realidade do Estado czarista também zeloso de sua unidade e atento a toda e qualquer manifestação de particularidades nacionalistas mas também de idéias universalistas, de fraternidade, de igualdade, de liberdade. O intercâmbio fácil e direto entre povos não era, como ainda hoje não é aconselhável, a não ser que se trate de uma língua natural, língua pátria de um povo dominante monitorada cuidadosamente pelo Estado dominador, esmagador econômica ou militarmente, ou ambas as coisas no mesmo tempo e lugar. Essa é uma realidade política que não se pode substimar.
Visto pelo ângulo sob o qual pintei esse quadro, a resposta é óbvia.
O Esperanto é realmente uma língua perigosa.
Ele ataca pacificamente o germe de toda a supremacia de um povo, de uma nação, de uma raça, sobre outras.
Ele condena, por princípio filosófico, o esmagamento de um povo por outro, ao proclamar como princípio de direito internacional o estado de "egalrajto" para todos os povos e nações. O Esperanto busca assegurar aos povos, indistintamente, o direito de poderem expressar suas necessidades, suas crenças, seus direitos, suas dúvidas, fixar suas obrigações, em uma língua compreendida e falada por todos em igualdade de condições, sem a humilhação de, renunciando à sua identidade étnica, sua nativa forma de expressão, ter que expor suas idéias em uma uma língua estranha à sua cultura, diante dos donos daquela língua que bem a conhecem e dominam e que percebem sem esforço as fraquezas dos que buscam desesperadamente, por imitação, nela se expressar.
Prezados ouvintes,
Essas considerações são fruto de uma opinião estritamente pessoal, sem o objetivo de ferir ou se opor a qualquer outra posição esposada por qualquer samideano. Não tenho o objetivo de convencer, e muito menos formar opinião coisa em que não acredito. Trata-se tão somente de expor um simples e despretensioso ponto de vista, aproveitando uma oportunidade gentilmente oferecida pelo organizador desses eventos o nosso incansável Sartorato para quem peço uma salva de palmas.
Acolham os meus agradecimentos pela paciência com que me escutaram e pelo apoio dado com suas amáveis presenças.
Muito Obrigado!
Kultura Kooperativo de Esperantistoj.
Portugallingva Prelego.
Rio de Janeiro (RJ), 2 de abril de 2004.
Luiz Carlos Franco.
Palestra proferida por Luiz Carlos Franco nas dependências da
Cooperativa Cultural dos Esperantistas em 2 de abril de 2004.
PDF: 168 KBytes.