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KKE » Palestras » Dos Grafiteiros de Pompéia aos Pichadores Atuais

Introdução

Além da comunicação pictográfica formal, sempre existiu comunicação informal ou alternativa, como atualmente se diz. A comunicação para o público em forma escrita em qualquer suporte (muro, pedra, madeira, etc.) geralmente manifestava idéias ou atividades da camada predominante de uma comunidade. Desta forma obedecia aos conceitos tidos como verdadeiros e devia pautar-se por padrões condizentes, moral e lingüisticamente, com a sociedade. Mas em qualquer sociedade há indivíduos que não concordam com essas normas ou que não as aceitam em tudo ou em parte e, às vezes, manifestam-se contra elas por diversos meios. No caso da manifestação escrita, alguns não o fazem por não ter o suficiente conhecimento das normas vigentes ou por assim se considerarem e, outras vezes, por temor à reação que suas idéias podem desencadear. Assim, muitas vezes se escondem no anonimato, mas não faltam casos em que mostram sua rebeldia (com ou sem causa) com a intenção de agredir, manifestando-se contra tudo e contra todos.

Essa escrita (não-oficial, alternativa, marginal, contestatária, de protesto ou como mais se queira chamar) existe desde que o homem dispõe de algum tipo de comunicação visual (gravuras, pinturas, símbolos pictóricos, ideogramas e, principalmente, com a representação escrita da linguagem humana, portanto, os grafitos de Pompéia não são as primeiras manifestações de escrita alternativa. Eles revestem-se de importância para ajudar a conhecer aspectos de sociedade não conservados na literatura nem em documentos convencionais. Podemos verificar que essa prática era comum antes e depois do soterramento de Pompéia e localidades circunvizinhas, chegando a nossos dias com nomes e pretextos diversos, mas pelas mesmas causas e por autores semelhantes.

Atualmente, com o nome de pichadores (de piche) deixam suas mensagens com material bem mais daninho que o carvão usado pelos grafiteiros, que só foi preservado pela lava do Vesúvio.

Importância dos Grafitos de Pompéia

Os graffiti (grafitos em italiano e assim dados a conhecer) têm grande importância para a história da sociedade romana do século I, mas para a Filologia estas inscrições foram importantes porque contribuíram para o conhecimento do latim vulgar. Sabemos que se preservaram muitos documentos do latim, o que permitiu que se conhece-se relativamente bem esta língua, devido à contribuição dos grandes escritores e de outros textos não-literários, porém estes textos eram escritos em latim culto (clássico), o que tem permitido que o latim se possa estudar até nos dias de hoje.

Sabe-se que as línguas românicas, também chamadas neolatinas ou novilatinas (português, espanhol, francês, italiano, romeno, catalão, sardo e outras) não se originaram no latim clássico, mas no latim vulgar ou corrente (língua falada em toda a România, mas com variantes em cada região). Esta língua era a falada ou vulgar, mas ao escrever usava-se, ou pretendia-se usar, a língua clássica, por isso quase não há nada escrito nessa língua falada. Para ter idéia de como seria, procuraram-se meios diretos ou indiretos: as chamadas fontes do latim vulgar. Nessas fontes destacam-se as inscrições que se conservaram em diversos suportes (pedra, chapas de metal, paredes, mosaicos, etc.).

Os grafitos de Pompéia, Herculano e Estábias são rabiscos nos muros dessas cidades que, de alguma forma, retratam a vida cotidiana dos cidadãos romanos do primeiro século de nossa era.

A escrita que se pôde e ainda se pode resgatar da época da erupção do Vesúvio tinha como suporte os muros da cidade assim como grandes mosaicos, nos que também se representavam figuras diversas. Havia casas decoradas com mosaicos com figuras e texto nas paredes, no teto e até nas calçadas.

As paredes da parte nobre da cidade (Fórum) funcionavam como jornais murais para informar a comunidade. Estavam cobertas de grafitos com temas diversos: slogans eleitorais, comerciais e anúncios dos próximos eventos no anfiteatro.

A Cidade

Pompéia tinha oito portões de entrada, 11 elevatórias de água, fórum, teatro ao ar livre para 5.000 pessoas para apresentações dramáticas; um teatro coberto, (Odeon) para música e poesia; um anfiteatro para 20.000 espectadores sentados, para realização de jogos e combates de gladiadores; três banhos públicos com calefação por ar aquecido; toaletes públicas e piscinas. Desempenhavam o papel de centros sociais. Depois da siesta1,os moradores podiam ir a esses banhos públicos. Dos 20.000 moradores de Pompéia, 8.000 eram escravos, os quais faziam algum trabalho manual ou trabalhavam como tutores, contadores, etc.

Na erupção do vulcão, calcula-se que pereceram 2.000 pessoas.

O fórum era rodeado por numerosos templos e edifícios administrativos. Existem naquela área as ruínas dos templos de Vênus, Apolo, Vespasiano, Júpiter; os dos deuses do lar, a basílica (destinada à Administração pública e à Economia) e o mercado. Era a área de maior atividade da vida pública da cidade. Noutras partes da cidade encontravam-se as casas e palácios particulares, muitos dos quais interessantes por sua riqueza arquitetônica e artística. Ocupavam grande espaço e tinham no seu interior um átrio e grandes jardins. Nas paredes havia afrescos, geralmente influenciados pela cultura e arte gregas. Entre estas casas destaca-se a do Poeta trágico, com um mosaico com figura e a legenda Cave cane (Cuidado com o cachorro), a Vila dos Mistérios, com ricos afrescos, a Casa do Fauno, com uma estatueta de um Fauno dançante e muitas outras.

As ruas da cidade tinham de 2,5 a 7 metros de largura e estavam pavimentadas com blocos de lava do Vesúvio. As calçadas eram altas e, nos cruzamentos, havia blocos altos de pedra no meio da rua para atravessar. Não havia sistema de esgotos e o lixo ficava no meio da rua para ser carregado pela chuva.

A maioria das pessoas morava em pequenos apartamentos em cima das lojas. Não tinham fogão nem água. As pessoas podiam comprar as refeições quentes nas lojas de alimentos e obter água potável nas fontes públicas dos cruzamentos das ruas.

O fórum era o centro político, comercial e religioso da cidade.

Pompéia tinha um aqueduto que trazia água dos morros próximos. Os canos passavam por baixo das calçadas para as casas dos ricos, os banhos públicos e os chafarizes. Uma elevatória de água com um tanque de chumbo em cima estava próxima a cada chafariz existente em cada cruzamento de ruas.

Dinheiro

O ás era uma moeda de cobre de pouco valor.

O sestércio era de prata e valia um ás e meio.

O denário era de prata e valia dez asses.

Fim de Pompéia, Herculano e Estábias

Nos dias 24 e 25 de agosto do ano 79 (d. C.) estas localidades foram sepultadas sob uma camada de lava do Vesúvio de cerca de três metros de altura e assim permaneceram por 1.700 anos e ainda estão em grande parte. Nessa erupção pereceu Plínio, o Velho2, tentando ajudar a salvar pessoas desde um navio. Seu sobrinho, Plínio, o Moço3, também presente, fez o seguinte relato da tragédia:

Você podia ouvir mulheres queixando-se, crianças chorando, homens gritando. Havia alguns com tanto medo de morrer que até imploravam a morte. Muitos erguiam as mãos aos deuses, e até acreditavam que não havia mais deuses e que aquela era uma noite interminável para o mundo.4

Desde o século XVIII vêm-se fazendo escavações para desenterrar a cidade. Das 67 hectares cobertas pela lava, só 44 foram exploradas, das quais só 15 foram abertas à visitação. Em 1997 reduziu-se esta área a 12% por problemas de manutenção.

Até 50 anos atrás, só era visitada por arqueólogos e pesquisadores de outras áreas, mas atualmente há uma média de 6.000 visitantes por dia, o que vem prejudicando aquela relíquia histórica. Alguns turistas deixam suas pichações por cima das inscrições preservadas. Outros levam "lembranças" como pedaços de mosaicos e partes de monumentos. Diariamente chegam pacotes de devoluções de turistas que se arrependeram de retirar essas preciosidades. Só os passos de tantas pessoas já danificam o ambiente. Algumas obras valiosas já foram retiradas para o museu de Nápoles, porém, se não houver alguma providência sem demora, já se fala de uma segunda morte de Pompéia. Os 140 guardas ali destacados não conseguem fiscalizar tantas pessoas em todo o território.

Os Grafitos

Nas paredes que funcionavam como jornais murais eram escritos os anúncios que podiam interessar à comunidade tais como lutas de gladiadores no anfiteatro:

Nas campanhas eleitorais, procuravam-se realçar as qualidades dos candidatos. Vejamos alguns desses grafitos:

As paredes suportavam todo tipo de escrita, desde a puramente informativa como a divulgação dos dias e locais de feiras livres, passando por anúncios comerciais e de espetáculos e propaganda política até os textos jocosos, geralmente de caráter sexual. Até há quem reclame da banalidade dos textos rabiscados nas paredes:

A seguir, alguns grafitos bastante conhecidos dos estudiosos:

Os Pichadores

O homem desenhava nas paredes já no tempo das cavernas. Desde então tentou-se comunicar com os recursos de que dispunha. Ao conhecer a escrita, passou a usá-la para transmitir suas mensagens, valendo-se dos suportes e instrumentos que lhe eram acessíveis. Detivemo-nos em Pompéia, já no início da era cristã, onde por um golpe do destino, foi-nos permitido o acesso a comunicações escritas nas paredes ou em mosaicos. Essas comunicações podiam ter finalidade comercial e por isso tinham lugares conhecidos para serem exibidas para que as lesse a maior quantidade de pessoas possível.

As mensagens eram geralmente escritas a carvão ou material de curta duração para as paredes poderem ser reaproveitadas, como ainda ocorre hoje com o quadro-negro. Freqüentemente, também se pintavam figuras e, às vezes, seus autores informavam seus nomes.

Paralelamente a estas informações convencionais, outros autores, anônimos ou não, rabiscavam suas mensagens com finalidades diversas: deixar constância de sua presença no lugar, expor suas idéias, fazer críticas a alguém, fazer denúncias, comentários jocosos geralmente de natureza sexual, etc. São estes escritos, já na época conhecidos como graffiti, os que despertam mais curiosidade nos estudiosos porque, de certa forma, retratam melhor a realidade, mascarada pela linguagem e hábitos da sociedade convencional. Esta escrita alternativa costuma ser espontânea, sem concessões aos eufemismos, ocultando-se muitas vezes o autor no anonimato, daí, no caso do latim, assim como inscrições de vários tipos em todo o mundo românico, conter elementos lingüísticos do latim falado ou vulgar, bastante diferente do usado pelos intelectuais do Império.

Acredita-se que as pichações que atualmente sujam e danificam as grandes cidades do mundo ocidental tenham origem na Nova Iorque de há mais de trinta anos, quando começaram a aparecer em transportes públicos e edifícios rabiscos, muitas vezes ilegíveis, com os quais diversas gangues marcavam seu território e usavam esses suportes para manifestar suas opiniões por meio de mensagens políticas, humorísticas, sexuais ou, mais comumente, sua total falta de idéias. A moda do graffiti (pichação) logo se espalhou por todo o mundo ocidental, e no Brasil pegou talvez da pior maneira possível.

A presença de casais de namorados em determinados lugares tem sido tradicionalmente motivo para gravar seu nome à ponta de canivete em árvores ou em outros suportes perduráveis, porém esta prática pouco mal pode causar. Os rabiscos em banheiros públicos (as famosas latrinárias) também já se tornaram um hábito, servindo até de tema para trabalhos de pesquisa acadêmica de ordem psicológica.

De essas e outras manifestações alternativas de comunicação ou manifestação do ego, a realmente prejudicial é a pichação. Se fossem escritas a carvão, como faziam os colegas pompeanos, pouco dano causariam porque são fáceis de apagar, mas dentre a imensa gama de material de escrita de que se dispõe na atualidade, os pichadores escolhem o spray para deleite de fabricantes e comerciantes de tintas e desespero de donos de imóveis, que não sabem mais o que fazer para evitar a pichação de suas propriedades.

Não se trata de falta de local para escrever suas mensagens nem exibir sua "arte". Parece haver apenas disputa de gangues locais competindo para causar o maior dano possível. Os rabiscos quase sempre indecifráveis e os grosseiros erros de ortografia nas poucas palavras legíveis dão bem idéia dos ideais artísticos destes "grafiteiros". É claro que também se pode manifestar arte ou transmitir mensagens escritas em paredes, muros ou suportes semelhantes, mas para isso são liberados espaços onde surgem verdadeiros artistas. Estes merecem que se lhes conceda espaço e até ajuda para desenvolver sua capacidade. Para os outros, os do spray, punição severa, que não precisa ser cadeia, mesmo porque dariam ainda mais prejuízo à sociedade, que tanto desprezam. Basta que se punam com a limpeza das paredes emporcalhadas (com perdão dos suínos) com suas pichações. Nada mais justo. Vassoura e balde d´água na mão à vista de seus colegas e do público em geral serviria como desestímulo para todos os que picham no lugar mais alto e visível que podem e para os que pretendem enveredar por esse caminho.

Referências Bibliográficas

Referências Informativas da Internet

Palestra proferida por Alfredo Maceira Rodríguez na sede da
Cooperativa Cultural dos Esperantistas em 5 de novembro de 2004.
PDF PDF: 134 KBytes.


  1. Costume mantido em alguns países do Mediterrâneo, principalmente na Espanha, de parar as atividades para dormir um pouco depois do almoço.
  2. Plínio, o Velho. Seu nome era Caio Plínio Segundo. (c 23-79). Do muito que escreveu conserva-se sua enciclopédia História Natural, 37 volumes. Era almirante e pereceu tentando ajudar o povo na erupção do Vesúvio do ano 79.
  3. Plínio, o Moço, sobrinho de Plínio, o Velho. Seu nome era Caio Plínio Cecílio Segundo.(62-113). Exerceu vários cargos públicos. Foi homem de letras. São conhecidas suas Epistolae.
  4. Plínio o Moço, testemunha da erupção.
  5. Duúnviro. Pessoa que no Império Romano exercia funções administrativas e judiciárias em uma localidade (duunvirato).

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