Aprender bem o esperanto é possível, mesmo quando dispomos de poucos livros e publicações, e não dispomos de professor. Quem duvida, lembre-se de que nossos pioneiros, os primeiros esperantistas do Império Russo, tinham apenas um livrinho de 48 páginas (Internacia Lingvo - antaŭparolo kaj plena lernolibro, por rusoj), de autoria de um misterioso Dr. Esperanto - o qual continha, além de uma gramática com dezesseis regras, um vocabulário de cerca de oitocentas raízes. O livrinho era vendido a 15 copeques, ou centavos de rublo. E apesar de tão modestos recursos, foi assim que aprenderam nossa língua o engenheiro Antoni Grabowski - o primeiro homem a falar com Zamenhof em esperanto e tradutor da epopéia polonesa Sinjoro Tadeo; o médico Kazmierz Bein, notável estilista de La Faraono, mais tarde conhecido como Kabe, e muitos outros escritores dos primeiros tempos do movimento.
Graças ao caráter aglutinante/isolante do esperanto, tão bem descrito por Zamenhof, no prefácio dessa primeira brochura, pôde-se também usar o novo idioma para comunicação escrita, mesmo com pessoas que dele nada sabiam: mediante o uso das "chaves", opúsculos que continham um resumo das dezesseis regras básicas e um pequeno vocabulário. Vá lá, que nós não temos a pretensão de Grabowski ou Kabes, mas podemos, sim, nos inspirar no seu exemplo e, com algum esforço, deixar de ser eternos principiantes. No Brasil, esperantistas do nível de Caetano Coutinho e de Ismael Gomes Braga nos contam que aprenderam o idioma lendo, respectivamente, um pequeno manual elaborado por Louis de Beaufront, e o Ekzercaro, de Zamenhof. Nesta conversa de hoje, pretendo dar algumas sugestões de leitura e do procedimento a seguir por quem, tendo concluído o curso básico, queira progredir.
Antes de relatar minha própria experiência, transcrevo a observação do escritor Fernando de Diego, da Academia do Esperanto, autor de várias traduções de obras famosas da literatura internacional, num de seus livros:
A leitura atenta de obras literárias de vários tipos, associada ao uso permanente dos dicionários, ao se ler e escrever a língua internacional, constituem o meio mais eficaz para chegar ao seu domínio, tanto no aspecto gramatical quanto no lexicológico. Convém usar simultaneamente um dicionário espanhol-esperanto e outro esperanto-esperanto, a fim de definir melhor a abrangência e os matizes semânticos de cada palavra objeto da consulta".
Esse mesmo autor recomenda, para uso em cursos de aperfeiçoamento, as seguintes obras: "Paŝoj al plena posedo" (W. Auld), "Proverbaro" de Zamenhof, "Pri lingvo kaj aliaj artoj" (Auld), "Esperanto em Perspektivo" (Lapenna e equipe), "Kumeŭaŭa, la filo de ĝangalo" (Tibor Sekelj), "La Luzidoj" (Camões; tradução de Leopoldo Knoedt), "Lingvo kaj vivo" (Gaston Waringhien), "1887 kaj la sekvo" (Waringhien).
Neste ponto incluirei meu próprio depoimento: como foi e tem sido meu aprendizado de Esperanto; como acho que, idealmente, deveria ter sido. Nesta língua, eu sempre fui autodidata, talvez porque, na época em que tive o primeiro contato com o idioma, eu estivesse muito empenhado em fazer o curso vestibular da Engenharia Química, para compensar meu péssimo curso secundário. Não sobrava tempo para freqüentar outros cursos. Mas fiz, na Liga Brasileira de Esperanto, os exames dos três níveis: elementar, superior e magistral.
Meu primeiro livro de esperanto foi o "Primeiro Manual", originalmente editado pela Librairie Centrale Esperantiste, e traduzido em português por Ismael Gomes Braga. Esse primeiro contato com o Esperanto eu o tive em 1953, em Recife, onde fez rápida escala o navio do Loide Brasileiro que me trazia de Manaus ao Rio. Na capital pernambucana havia-se realizado um congresso de esperanto e, em decorrência desse evento, algumas livarias ainda expunham livros da língua internacional. No ano seguinte, 1954, visitei pela primeira vez a Liga Brasileira de Esperanto, na Praça da República, onde conheci o presidente Carlos Domingues, o padre João Batista Kao, chinês, cuja palavra fluente em esperanto deixou-me indelével impressão.
Na Liga comprei, por sugestão de alguém, ou por curiosidade própria, as seguintes obras: "Esperanto sem Mestre" (Lorenz), numa edição antiga, sem os acréscimos introduzidos mais tarde por Luis Porto Carreiro Neto, "La tuta Esperanto", de Seppik, "Bensona Esperanto-Metodo", muito bom livro para uso internacional; alguns livros de leitura: "Koro", de Edmondo de Amicis, "Esperanta Krestomatio" (a "Fundamenta Krestomatio" estava esgotada e não saira ainda a edição de 1954); "Esperanto-Modelo", compilado pelo incansável Ismael Braga, um dicionário bilingüe e o indispensável "Plena Vortaro", da SAT, embrião do futuro PIV.
Meu aprendizado se deu pela leitura e manuseio desses livros, da revista "Brazila Esperantisto", da revista "Esperanto", da UEA, e de contatos, conversas com aqueles poços de sabedoria que eram Carlos Domingues, Caetano Coutinho, Costa Filho, João Batista Mello e Souza, Porto Carreiro Neto, em raras ocasiões o próprio Ismael, que foi meu examinador no exame elementar; Jozefo Joels, e, mais tarde, Geraldo Pádua.
Em 1955 conheci Sylla Chaves, que fora cumprimentar-me à saída de um curso de esperanto, que eu apresentava na Rádio Roquete Pinto. Mais tarde o contato com Sylla, que então viajava muito e até vivia no exterior, e cuja competência é de todos conhecida, também contribuiu para meu desenvolvimento.
Nessa época, dado o prestígio que lhes conferia sua posição de professores universitários, ou do Colégio Pedro II, seu indiscutível saber e as amizades que mantinham nos meios acadêmicos, Carlos Domingues e Mello e Souza atraiam para o círculo esperantista celebridades como Antenor Nascentes, Rocha Lima, Cândido Jucá Filho, os quais compareciam a almoços festivos e a outras solenidades, em que manifestavam sua simpatia ao esperanto. Cada contato desses valia mais que muitas aulas, porque qualquer manifestação desses eminentes filólogos trazia sempre embutida uma lição.
Já vimos que nossos pioneiros aprenderam a partir de um livrinho, descobrindo, por seu próprio trabalho, o imenso potencial do esperanto, que o "Unua Libro" não podia, nem pretendia esgotar. Mas esse é um método penoso e inacessível ao aluno médio. Qual seria, então o método ideal para o aprendizado do esperanto? Quem tiver acesso a bons professores, deve aproveitá-los. Mas, principalmente hoje, quando dispomos de tantos métodos bons, sejam brasileiros (por exemplo, os de Sylla Chaves, Sartorato, Jair Salles), estrangeiros, ou internacionais (como, "Saluton!", de Audrey Child-Mee); programas de rádio, televisão, Internet, programas para computador, ainda mais fácil se tornou aprender o idioma, em nível elementar, fora de uma sala de aula. Mais difícil é o aperfeiçoamento, para o qual não há solução fora de muita leitura atenta, refletida e anotada, dos bons modelos de linguagem.
Além das obras já citada, cuja lista endosso plenamente e, que, em grande parte, coincide com a minha, eu ainda indicaria, fora de ordem ou prioridade, e sendo forçado a omitir muitos ítens, para limitar este trabalho: "Unua legolibro" (Kabe), "La lanternisto kaj aliaj fabeloj" (Kabe), "Faktoj kaj Fantazioj" (Marjorie Boulton), "Por pli bona mondo" kaj "Libera ekflugo" (Sylla Chaves), "Kiel diri?"(Lentaigne), "Esprimaro franca-esperanta" (Bourgois), "ABC-Gramatiko kaj Mempraktilo" (De Vleminck/van Damme), "Fundamento de Esperanto" (edição em 5 línguas, com estudo introdutório de André Albault); o "Plena Ilustrita Vortaro) (ou, pelo menos, o "Plena Vortaro", seu precursor); os ensaios de Waringhien: "Beletro", "LIngvo kaj vivo", "1887 kaj la sekvo", Kar la ceter'... nur literaturo", "Ni kaj ĝi"), "Gvidlibro al Supera Ekzameno" (du-voluma), da Hungara Esperanto-Asocio.
Para manter contato com um esperanto vivo, fluente e moderno, além da revista "Esperanto", recomendo a leitura de "Kredu min sinjorino" (Cezaro Rosetti) e de "El la maniko" (Reto Rosetti); aos leitores não puritanos, "Kruko kaj Baniko el Bervalo", e ""El la vivo de bervala sentaŭgulo", ambos de Louis Beaucaire, uma coleção de historietas e anedotas picantes e irreverentes, numa linguagem tão espontânea e fluente, que demonstra o poder de comunicação do esperanto, quando manejado por quem tem o domínio da língua... Também modelo de fluência e naturalidade encontramos no "Mondo de travivaĵoj, do saudoso Tibor Sekelj. Ainda, apesar do uso abusivo de neologismos, mas pela excelente sintaxe, "Do� Barbara" e "Cent jaroj da soleco", traduções de Fernando de Diego; para os amantes da poesia, a "Esperanta Antologio", compilada por Auld e o Parnasa Gvidlibro". O mencionado "Esperanto sem Mestre", revisto e ampliado por Luis Porto Carreiro Neto, contém muito material valioso, junto com ítens de pouco interesse, num todo heterogêneo.
Mais uma "dica", sem pretensões de originalidade. Acho muito proveitoso o uso de textos, em duas ou mais línguas, para treinar tradução e para aprender novas expressões. O livro mais indicado para esse exercício é a Bíblia, por ter as frases numeradas, e por ter sido muito bem traduzida por Zamenhof (Antigo Testamento) e por pastores ingleses (Novo); ultimamente, pelo especialista Guerrit Berveling. Mas há muitos outros textos ótimos para tradução/comparação: as traduções de Porto Carreiro (La Libro de la Spiritoj e muitos outros); traduções de Geraldo Mattos (ex. "La Bagasejo"), de Geraldo Pádua ("Kinkas akvobleko"), de Sylla Chaves ("Por pli bona mondo"), de Leopoldo Knoedt; da série "Aperfeiçoe o seu conhecimento" (do "Brazila Esperantisto"), na maioria de Porto Carreiro Neto. Mais recentemente, "La alienisto", traduzido por Paulo Sérgio Vianna.
Ler atentamente, anotar, se possível preparar um índice ou um fichário. Com o computador isso ficou ainda mais fácil. E complementar tudo isso freqüentando palestras, congressos, encontros, ouvir o esperanto em rádio, usá-lo na Internet, vê-lo pela televisão, em correspondência, viajando, enfim, mantendo contato com o mundo. Eis o caminho.
Palestra proferida por Floriano Pessoa na Cooperativa Cultural dos Esperantistas
em 3 de dezembro de 2001.