Costuma-se atribuir à literatura esperantista um papel fundamental na consolidação e no desenvolvimento da língua esperanto. Ao contrário da grande maioria dos projetos de línguas planejadas, o esperanto, desde seus primórdios, criou uma literatura própria, com obras em prosa e em verso, que atestam sua viabilidade como instrumento de comunicação e de cultura. O livro, portanto, desempenhou um papel preponderante no desenvolvimento do novel idioma.
Entretanto, tão ou, talvez, mais importante que o livro para a consolidação e enriquecimento do esperanto foi, sem dúvida, a imprensa esperantista.
Zamenhof lançou o esperanto ao mundo em 26 de julho de 1887. Nos primeiros meses, o autor dedicou-se a divulgar o novel idioma nas rodas intelectuais de Varsóvia e adjacências. Logo em seguida, surgem os primeiros adeptos. Grabowski era um deles. As primeiras trocas de idéias são feitas pessoalmente ou por carta. Entretanto, quanto mais longe o idioma se expande, mais é sentida a necessidade de se ter um periódico para a troca de idéias, para a divulgação das últimas conquistas e para a publicação dos primeiros textos literários no novo idioma. Assim, em 1o de setembro de 1889, portanto dois anos após o lançamento do idioma, surgia o primeiro periódico esperantista: LA ESPERANTISTO (gazeto por la amikoj de la lingvo Esperanto sub la kunlaborado de D-ro Esperanto - D-ro L. Zamenhof - eldonata de Chr. Schmidt, prezidanto de la Klubo mondlingva en Nürnberg. Eliras unu fojon en monato).
Os primeiro e segundo números continham artigos em esperanto e alemão, mas, a partir do terceiro número, o periódico passou a publicar artigos somente em esperanto. LA ESPERANTISTO tornou-se, pouco a pouco, o elo de união entre os esperantistas dessa época, que, até então, limitavam-se a trocar idéias, através da correspondência pessoal. O periódico trazia bons textos que ajudavam no aprofundamento do estudo da língua. Ele também possibilitava que Zamenhof prestasse esclarecimentos a todos por meio de suas "Respondoj al amikoj". Ao mesmo tempo, divulgava notícias sobre o progresso do movimento. Em outubro de 1890, LA ESPERANTISTO passa às mãos de Zamenhof, que assume a responsabilidade, inclusive financeira, de editá-lo. Mas, em fins de 1891, premido por sua difícil situação financeira e em virtude do pequeno número de assinantes, insuficientes para manter a revista, Zamenhof manifesta a intenção de abandonar a empreitada. Tudo teria terminado aí, não fosse o desprendimento do esperantista alemão W.H. Trompeter, que, embora não sendo rico, ofereceu um aporte financeiro, permitindo à revista sobreviver por mais três anos, ou seja, até 1894. Em fins desse ano, Trompeter não pôde mais continuar subvencionando o periódico. A responsabilidade financeira pela publicação da revista retorna às mãos de Zamenhof, em 1895, embora continuasse premido pelas dificuldades financeiras. Entretanto, a publicação da tradução de um texto de Tolstoi num dos números seguintes agravou a situação de sobrevivência da revista. LA ESPERANTISTO foi proibido de circular na Rússia, onde se encontrava a maioria de seus assinantes. Em junho daquele ano, saiu o último número da Revista. Com o desaparecimento do LA ESPERANTISTO baixou o entusiasmo e a confiança do Mestre e dos demais samideanos.
Felizmente, ainda naquele ano, em dezembro de 1895, surgia, patrocinado por um fervoroso clube de Esperanto da cidade sueca de Upsala, o sucessor do LA Esperantisto: LINGVO INTERNACIA. Cronologicamente, entretanto, a segunda revista esperantista foi LA MONDLINGVISTO, editada por M.S. Bogdanov, que teve, porém, vida efêmera (1889-1890).
A revista LINGVO INTERNACIA, sucessora do LA ESPERANTISTO não tinha somente um caráter propagandístico e de movimento. Ela também cultivava o lado literário. Muitos textos, em prosa e em verso, de autoria dos mais renomados conhecedores do idioma na época foram publicados na LINGVO INTERNACIA e, mais tarde, muitos deles foram reunidos e publicados na famosa FUNDAMENTA KRESTOMATIO (1903).
Outro importante periódico surgido em 1898 foi "L'Esperantiste", dedicado, principalmente à divulgação e defesa do idioma, que, embora bilíngüe (esperanto e francês), publicou também importantes textos literários.
Em 1905, surgia a revista ESPERANTO, fundada por Paul Berthelot, que, em 1908, comprado por Hector Hodler, transformou-se no órgão oficial da então recém-criada Universala Esperanto-Asocio (UEA).
Cabe, ainda, mencionar a revista literária LA REVUO, que foi publicada entre setembro de 1906 e agosto de 1914, sob o patrocínio da Livraria Hachette, de Paris, tendo como redator o próprio Zamenhof.
Outro marco histórico foi, sem dúvida, o aparecimento de ESPERANTO TRIUMFONTA, em 1920, editado e redigido por Teo Jung, e que, em 1925, passou a denominar-se HEROLDO DE ESPERANTO, informativo independente sobre o movimento esperantista e que existe até hoje.
Em 1932, surgiu um periódico muito querido dos esperantistas, LA PRAKTIKO, publicacão do Instituto Cseh, de Haia, na Holanda, que foi editado até 1970.
Cabe, também, mencionar o periódico LITERATURA MONDO, influente revista literária, que circulou no período entre-guerras (1922-1926/1931-1938) e que teve entre seus colaboradores, além de outros eminentes esperantistas, JULIO BAGHY e KALOCSAY.
Outro periódico que também se destacou nesse campo foi LA NICA LITERATURA REVUO, sob a responsabilidade de Gaston Waringhien e que circulou entre 1955 e 1962.
Digno de menção é também o periódico IOE-Gazeto, surgido em 1966, na Iugoslávia, por iniciativa dos irmãos Tibor e Antonj Sekelj - uma espécie de revista "Esperanto" do leste europeu (Europa comunista), que teve ampla circulação e relativo sucesso até 1972, quando deixou de existir.
Finalmente, é digno de um registro especial as revistas EL POPOLA ĈINIO, que começou a ser editado pelo governo chinês desde 1950 até 1953 e, depois, de 1957 em diante até o ano 2.000 ininterruptamente, e SENNACIULO, órgão oficial da SAT, a partir de 1924, e SENNACIECA REVUO, cujo primeiro número apareceu em 1921, passando por um período entre 1928 e 1933 com outro nome (LA NOVA EPOKO) e que passou a aparecer com regularidade anual, novamente como SENNACIECA REVUO, a partir de 1952, com um conteúdo cultural, político e literário.
Uma menção especial deve ser dada à primeira revista em esperanto publicada no território nacional, que foi o BRAZILA ESPERANTISTO, cujo primeiro número surgiu em 1907, existindo até hoje, sendo, portanto, uma das revistas mais antigas editadas em esperanto, embora com algumas interrupções, durante esse período.
No momento atual, pouco mais de uma centena de periódicos são editados regularmente. Alguns mensais, outros bimestrais ou trimestrais e uns poucos semestrais ou anuais.
Dos atuais periódicos, 81 são órgãos oficiais de Associações Nacionais de Esperanto. Outros 50 representam Associações Técnico-Especializadas, enquanto que 17 não pertencem às duas categorias anteriormente citadas.
Cabe, por fim, informar que os jornalistas esperantistas reúnem-se numa associação especializada denominada "Tutmonda Esperantista Ĵurnalista Asocio (TEĴA), que foi fundada em 1948 e é filiada à UEA, na categoria de "kunlaboranta asocio". Seu objetivo é servir aos jornalistas esperantistas, sejam profissionais ou amadores. Possui, atualmente, 50 membros e é presidida por Stefan Maul, que é o Diretor da Revista MONATO. Essa associação tem um órgão oficial intitulado "Internacia Ĵurnalisto". Há alguns anos, publicou um livro muito útil para comunicadores em geral denominado "Manlibro pri Ĵurnalismo".
Palestra proferida por Aloísio Sartorato nas dependências da Cooperativa Cultural dos Esperantistas em 1º de fevereiro de 2002.