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O Drama dos Iraquianos

Aqueles que criticaram a guerra do Iraque, hoje se vangloriam ou choram? Todas as suas afirmações e prognósticos, todos os protestos de centenas de milhares de manifestantes contra esta guerra criminosa, parecem agora corretas. Meio ano após o fim da guerra o Iraque é um país instável e caótico, onde não imperam a ordem e a paz mas o crime e o terror, a fome e a pobreza. Os exércitos de ocupação sofrem o flagelo da sabotagem e francos atiradores neste momento em que escrevo estas linhas, o rádio novamente informa sobre a morte de um soldado americano, vítima de uma granada. Já morreram no Iraque mais soldados após a guerra-relâmpago do que durante ela. Os serviços secretos supõem que após a guerra, terroristas da abjeta Alcaida infiltraram-se no país, o que não existia no regime do despótico Sadam Husajn (embora os EUA afirmassem ao contrário).

Mentiras e Mentiras

E ainda mais terrível: os argumentos usados pelo presidente americano George Bush e pelo primeiro ministro Tony Blair para esta guerra, mostraram-se, não só injustos mas até mesmo falsos. Ambos, devotos cristãos, mentiram para obter de seus parlamentos, consentimento para uma guerra criminosa, contra um país islâmico, no qual vive também uma minoria cristã (quantos deles, além de milhares de islâmicos, morreram nessa aventura, ninguém sabe). O grande erro de Bush e Blair foi, evidentemente, pensar que os iraquianos os receberiam com festas e flores, se eles libertassem o povo do diabólico Sadam Husajn. De fato eles varreram o regime terrorista embora sob outra forma ele ainda esteja vivo eles venceram facilmente um exército miserável, subornando por milhões de dólares os generais iraquianos.

Ingênua Ilusão

Mas foi uma ingênua ilusão de Bush e Blair imaginar que após a guerra, o povo iraquiano, sem qualquer resistência, ia aceitar a democracia ocidental e, com gratidão, adotar a maneira de viver americana. Ao contrário, a maior parte do povo iraquiano, repudia americanos e britânicos, incapazes de proporcionar ao povo, até mesmo o mínimo necessário das necessidades vitais. Em vez de flores, os iraquianos jogam pedras nos soldados ocidentais e os extremistas usam armas mortais. Mostrou-se que Washington visava somente eliminar o déspota ( e ganhar importantes jazidas de nafta), mas nenhum plano para reconstruir um país dilacerado antes por Sadam Husajn e posteriormente destruído completamente pelas bombas ocidentais. Hoje, freqüentemente se lê e ouve-se que o povo americano estranha os problemas no Iraque comparando-os aos da Alemanha após a segunda guerra mundial: a redemocratização não deu certo na Alemanha nazista, também completamente destruída? Esses inocentes não enxergam que não se pode comparar um país ocidental com o Iraque árabe.

Um Dilema para as Nações Unidas

Esta é uma situação delicada para Bush e os EUA que já entenderam que ate mesmo uma superpotência, sozinha não pode pacificar o Iraque , e Bush agora não pede mas exige a ajuda de outros países; que eles dêem soldados, mas principalmente dinheiro para reconstruir um país criminosamente destruído. Mas, de modo arrogante, Bush quer continuar decidindo sozinho quem e o que fazer; sim, que as Nações Unidas ajudem, mas não deem ordens. A ONU ( e os governos francês, alemão e russo, além de outros) foi contrária a esta guerra. A ONU, fiel à sua finalidade, tentou evitar a guerra e lutou pela paz, principalmente, pelos direitos humanos. Mas agora ela está num dilema: atender simplesmente as exigências de Bush, significaria endossar um crime contra o direito internacional e os direitos humanos; dizer não aos EUA significaria cometer um crime contra os Iraquianos miseráveis e sofredores e contra os direitos humanos. É de se esperar que a ONU, também atingida por atentado no qual morreu seu representante em Bagdá, sob a orientação do seu secretário geral, o habilidoso e experiente Kofi Annan, encontre uma solução comprometida com a realidade e que satisfaça a todas as partes envolvidas neste emaranhado diplomático.

Sofrimento e Miséria

Esperamos isto, principalmente, no interesse do povo iraquiano. Durante décadas ele sofreu as misérias, não só de um regime opressor, Mas também pelas sanções impostas ao Iraque, com as quais os EUA visaram levar Sadam Husajn ao fracasso. Washington simplesmente não quis entender as advertências de governos europeus de que aquelas sanções não iam atingir o ditador, que facilmente poderia desafiá-los e com seus companheiros levar uma vida de luxo, e que somente a massa do povo seria sacrificada, podendo o déspota fazer crer ao povo que a culpa era do ocidente. Na primavera, eles sofreram com a guerra e agora sofrem pelas suas conseqüências, incapazes de expulsar os exércitos de ocupação. Não nos apiedemos dos erros de Bush e Blair, mas sim, do povo sem perspectiva, que saiu de um terrível pesadelo e caiu em outro pior.

Matéria publicada em Esperanto na revista belga "Monato"
e traduzida para o português pelo Clube de Esperanto de Campos.
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