Uma das graves confusões de nossa época parece-me ser a afirmação de que, com a queda da União Soviética fracassou o socialismo e venceu o capitalismo. Será que o socialismo da União Soviética era o oposto ao estado capitalista, no qual o estado (isto é, os funcionários estatais) era dos capitalistas e os cidadãos comuns pobres explorados? A única diferença da Rússia de hoje é que o estado, no regime anterior, garantia aos pobres um nível de vida sem fome e agora, na ex-União Soviética, os novos capitalistas (ou grande parte, velhos) não têm o menor interesse pela sorte dos pobres. Em um capitalismo sem máscara eles procuram somente o lucro próprio.
Se aceitamos esta análise, podemos dizer que o socialismo não fracassou (aliás, ele nunca e em lugar algum existiu, até agora), o que fracassou foi uma forma de capitalismo. Assim, ele não fracassou por ser capitalismo, mas por ser este um sistema anti-econômico: uma grande número de burocratas, opondo-se a um empresariado despreparado, com uma logística pobre (nas fábricas, freqüentemente as máquinas paravam porque a matéria prima não chegava a tempo), e com ineficazes métodos de produtividade e maquinário obsoleto. Acrescentou-se mais o obstáculo ideológico: A União Soviética, durante o período da guerra fria consumiu somas gigantescas com o exército e com o arsenal atômico. Este saco de problemas, erros e absurdos, finalmente levou à falência o capitalismo de estado.
A vitória do capitalismo ocidental contra o comunismo deveu-se, principalmente, ao fato de que ele é muito mais eficaz, com muito maiores lucros, não somente pela ação de alguns funcionários de alto escalão mas também por uma grande camada da população. Os EUA e outros países podiam financiar os custos de seus arsenais atômicos sem levar o povo à miséria. Na maioria dos países ocidentais nós temos "capitalismo com visão humana" (quando dissidentes da Europa oriental sonhavam com um capitalismo com visão humana). Capitalistas ocidentais (e políticos) tinham consciência de que para uma boa produtividade é necessário ter trabalhadores satisfeitos. Portanto, indústria, economia e governos (com leis apropriadas) possibilitaram a mais e mais pessoas, saúde e fartura. Em conseqüência do seu componente social este sistema prosperou e todos se orgulhavam do seu "capitalismo moral".
Mas agora esta moralidade mostra-se mais e mais hipócrita. Um escândalo após o outro em vários países de reputação rasgaram esta máscara. Mais lamentável ainda foram os escândalos aberrantes ocorridos na capital do capitalismo mundial, os EUA. Não são somente os costumeiros subornos e as ações de corrupção ou lucros especulativos, mas também, falsificação de balanços feitos por executivos de grandes companhias. Como se não bastassem esses abomináveis procedimentos de conhecidos empresários e de renomadas empresas americanas, até mesmo o presidente Bush e seu vice-presidente, incriminam-se por ilegalmente se enriqueceram com as chamadas "informações privilegiadas"
Que aconteceu? Por que os capitalistas procedem deste modo imoral? Parece que os escândalos escondem o caráter do novo capitalismo: ele acordou voraz. Possibilidades de satisfazer a esta voracidade são imanentes ao sistema. Tomemos o exemplo das "informações privilegiadas" Se eu possuo ações de uma companhia e ao mesmo tempo tenho nela importante função (chefia, conselheiro ou fiscal), nesta companhia, naturalmente, tomo conhecimento de muitos assuntos internos dela. Por exemplo, eu sei que breve a companhia estará em grave crise econômica, cuja conseqüência será a queda da cotação de suas ações, o que, os acionistas comuns não têm como saber. Logo, vendo minhas ações muito bem cotadas e apuro um grande lucro. Alguns dias ou semanas depois., os acionistas que de nada sabiam sofrerão terrível perda pela queda do valor das ações.
De modo semelhante, mas com maior avidez (criminosa) procedem os diretores de companhias: Eles falsificam os balanços de tal modo que o valor das ações saltam para cima. Por serem os seus salários vinculados à valorização das ações, eles ganham mais. Quando a companhia vai à falência, os acionistas perdem e eles comemoram: nas contas deles já estão os milhões. Mas por que os acionistas podem ser de tal modo (e por muitas outras maneiras) enganados?
Muitas décadas de prosperidade do capitalismo ocidental, durante as quais cresceu consideravelmente o número de milionários, despertou a avidez das pessoas para o consumismo e o lazer. Defensores do capitalismo argumentaram que todos podem tornar-se milionários; a questão é somente comprar ações e especular nas bolsas. Para satisfazer às exigências privatizou-se as empresas estatais, proporcionando assim um maior número de novas ações. Para satisfazer a avidez de lucros, dispensaram-se trabalhadores, pelos seus altos salários e os substituíram por robôs (automatização e racionalização é o tema da moda) e fábricas foram transferidas para países distantes, onde os salários são baixos.
A única meta das companhias atualmente é a maximização do lucro, é a maximização do dividendo e do valor das ações. Acrescente-se a isto as promessas megalomaníacas da assim chamada nova economia (computadores, comunicações eletrônicas). Para que os empresários visem somente esta meta do lucro máximo, pagou-se a eles, não somente gigantes salários, mas principalmente os estimulou a ações e opções visando aumentar o lucro da empresa. Astutos empresários exploram esta possibilidade e falsificam balanços para pessoalmente lucrarem
Além dos empresários, com este novo capitalismo, lucraram principalmente, os espertos especuladores, mas a maioria dos homens lucraram pouco ou nada ou alguns até perderam, quando mais e mais empresas foram à falência. E eis a parte mais terrível: cresceu o número de desempregados. Perdeu-se em tal sociedade egoística, o equilíbrio social do capitalismo "moral". de tal modo que temos agora um grande número de miseráveis em ricos países.
Os grandes escândalos dos últimos tempos nesta área, nos EUA, mostram, todavia, que este capitalismo, sem a máscara da moral, pode perturbar todo o sistema econômico do país. Por isso, Bush exige muito mais controle e volta à moralidade. Nós devemos pensar se vamos seguir o chamado de alguém à moral, quando ele mesmo pecou contra ela. Bush, por outro lado, tem muitos recursos simples para abafar as críticas e nos fazer esquecer seus erros: ele ordenou o ataque já de há muito planejado contra o Iraque para, em um novo patriotismo, salvar os EUA e a si mesmo.
Esta matéria foi publicada, em Esperanto,
na Revista Belga Monato e traduzida para
o português pelo Clube de Esperanto de Campos.