Depois de uma década, pode-se levantar uma outra visão, diferente da atual, sobre a queda da Iugoslávia. Eu, que nasci no começo da Era Comunista e passei a maior parte da minha vida neste regime, porém, nunca como membro do partido comunista, posso com alguma objetividade apresentar a situação sobre outro prisma, a saber que nem o nacionalismo, nem a crise econômica arruinaram a Iugoslávia. O que então?
Em 1945, a Iugoslávia era um país destruído economicamente. Antes da 2ª Guerra Mundial, era um país 95% agrário, seus moradores viviam praticamente da produção rural. Durante os 4 anos da Guerra, com o movimento rebelde mais ativo, o país foi quase totalmente destruído. Restaram apenas algumas indústrias na Eslovênia e em algumas cidades croatas e voivodinas.
Em tal situação, o comunismo igualitário era bastante eficaz. Este obrigava os homens a trabalhar gratuitamente para reconstruir o país. Mas, através de decretos, também foram alcançados bons resultados como igualdade jurídica entre homens e mulheres, educação para todas as crianças e seguro mínimo de saúde para todos. Eu mesmo nasci numa família pobre, sem o comunismo certamente não poderia estudar mais de 4 anos, mas as escolas e faculdades públicas permitiram-me explorar toda a minha capacidade.
Tudo isso deve-se ao sistema (efetivamente desumano) porém que obteve sucesso em pouco tempo: a economia desenvolveu-se e a Iugoslávia logo se transformou num país industrial. Após 10 anos, 30% da população já obtinha seu sustento fora da agricultura. Sete ou oito anos depois, Tito abriu as fronteiras do país e aqueles que não estivessem contentes com o comunismo poderiam ir aonde quisessem para trabalhar.
Milhares de iugoslavos foram para a Alemanha, Áustria, França e países escandinavos. Eles enviavam dinheiro a seus parentes na Iugoslávia o que muito contribuiu para o crescimento econômico.
Em meados dos anos 60, começou a despontar o turismo e então formava-se uma sólida classe de homens ricos, principalmente, nas regiões historicamente mais evoluídas: Eslovênia, Croácia e Voivodino. A "burguesia" precisava da abertura econômica para enriquecer-se ainda mais. Eles usavam o dinheiro superfluo para construir casas de veraneio e comprar carros de luxo, pois, as leis comunistas proibiam as pessoas privadas de possuírem empresas com mais de cinco empregados.
Diretores de grandes empresas (então, comunistas) tinham a sua disposição grandes somas de dinheiro recebidas de forma corrupta e enviadas ao exterior ilegalmente. Os pequenos empresários também dispunham sempre de mais e mais dinheiro mas, que não podiam ser reinvestidos. Da mesma forma, enriqueciam chefes políticos e pessoas que ocupavam altos-postos na polícia, forças armadas e no judiciário, sempre com altos salários e privilégios.
Algumas regiões sobressaíram-se mais do que as outras. A Eslovênia floriu. Foram construídas tantas indústrias que foi preciso importar trabalhadores da região Sul do país. O turismo na Croácia também trouxe grandes lucros. A camada social mais rica constituída em parte pelos comunistas, em parte de empresários e em parte dos parentes de trabalhadores assalariados que viviam no exterior, estavam cada vez mais descontentes, exigindo reformas econômicas.
Mas, depois que Tito, por duas vezes, esforçou-se para abrir um pouco a economia, os seus opositores, comunistas ortodoxos, não o permitiram. A "burguesia" descontente não viu outra maneira para derrubar as barreiras econômicas a não ser através do nacionalismo reagindo contra o comunismo ortodoxo. Eis a maneira mais eficiente de ganhar o apoio da população e derrubar um sistema político e econômico sustentado pela polícia e forças armadas.
A primeira Revolução Nacionalista foi organizada pelos comunistas liberais, na Croácia, no final da década de 60. Como resultado, Tito, pela força, derrubou o governo comunista. Posteriormente, ele deveria derribar um movimento liberal similar entre comunistas da Sérvia. Em seguida, em 1976, aceitou-se uma nova constituição: sem alterar os princípios políticos e econômicos de igualdade, foi introduzido um sistema parecido com uma Federação de Repúblicas divididas num total de 8 regiões.
A nova Constituição não agradou os emergentes: continuava o sistema econômico que não permitia o reinvestimento e o enriquecimento. Porém, ela possibilitou que dentro da República se criassem governos independentes, o que fortaleceu o Nacionalismo.
Depois da morte de Tito em 1980, o sistema foi bloqueado. Por causa da nova Constituição e seu veto (se apenas uma república discordasse, não era possível alterar a decisão), a Iugoslávia não existia mais politicamente. Apenas as forças armadas e a política externa tinham papel em comum. O resto era resolvido dentro das próprias repúblicas, inclusive dentro da polícia.
Além disso, os anos 80 foram caracterizados por uma recessão econômica. Era necessário pagar os empréstimos, os quais o Estado não investiu sabiamente. Mas, o principal problema eram as grandes e crescentes diferenças regionais. No meio da década de 80, a diferença entre a parte mais rica da Eslovênia (Renda per Capita de 3.500 dólares) e a mais pobre de Kosovo (Renda per Capita de 350 dólares) era de 10 vezes. Eslovenos e croatas estavam cada vez mais descontentes porque eles não podiam evoluir rapidamente, enquanto os kosovanos estavam insatisfeitos com sua extrema pobreza.
Durante 10 anos depois de Tito o nacionalismo evoluiu em todas as repúblicas e regiões, crescimento este causado essencialmente pela camada mais rica cujos filhos eram jornalistas, escritores e professores e que mais e mais influenciavam a atmosfera nacionalista. Os ricos, de fato, não lutavam contra a Iugoslávia mas, contra o sistema econômico comunista. Se, mais cedo, tivesse sido introduzido um sistema pluripartidário com quebra dos limites econômicos (economia centralizada no Governo) , a Iugoslávia não teria falido. Porém, o comunismo ortodoxo por muito tempo não permitiu isto e criou a tragédia da ex-Iugoslavia.
Suponho então, não foi a inconveniente política nacional da Iugoslávia que causou sua queda (ela era no mínimo justa para a grande minoria do país), mas, foi o descontentamento da burguesia emergente, provocada por uma economia rígida e não-capitalista, que a impediu de enriquecer-se sem limites.
ZLAKTO TISLAR
Traduzido pelo Clube de Esperanto de Campos, da revista Esperantista Monato - Internacia Magazino Sendependa (Monato - Revista Internacional Independente).
Título Original: Aliaj vidpunktoj pri la tragedio de Jugoslavio.
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