| Livro: | Revelação |
| Autora: | Neide Barros Rêgo |
| Preço: | R$ 15,00 |
Inaugura-se, a cada dia, o amanhecer. Quanto de azul vai tingindo o céu? Quanto de frescor vai lavando a aurora? Impossível dizer, pois é único cada amanhecer.
Assim, cada livro que nasce é aurora que se anuncia. Assim, apresenta-se Revelação, livro de estréia de Neide Barros Rêgo. Único nos seus encantos, nos seus achados.
Uma vez mais renova-se a emoção de prefaciar uma obra poética, Deixa-me a autora os originais, porém ela mesma não se vai. Permanece em cada estrofe, em cada verso.
É noite, enquanto escrevo, mas esplende o sol - é o belo sorriso de Neide.
É madrugada, enquanto leio, mas um rumorejar de água bem clara acorda o silêncio - é a voz tão bela de Neide.
Ergue-se o Parnaso e dele surge o vulto nobre, sobraceiro que vem cantando:
Trago-te versos, sonhos concebidos,
nascidos bem no fundo do meu ser:
Lá dentro, eles dormiam esquecidos,
esperando o momento de nascer:
Por certo estavam eles escondidos,
guardados, sem eu mesma perceber:
Tocaste suavemente os meus sentidos
com palavras, mostrando o teu poder:
Vieste na minha alma remexer;
fazendo o que era noite amanhacer;
acordar; descobrir em mim, a esteta.
Despertaste, num golpe de magia,
aquilo que nem mesmo eu conhecia:
também eu poderia ser poeta.
Belo soneto. Ressoa tão bem a anunciação: Trago-te versos... Vejo a poetisa chegando com uma braçada de flores que se transformam em versos ou de versos que se abrem em flores.
O soneto acima - Descoberta -, tão merecidamente dedicado ao exímio poeta Armando Vaz, já revela a candura da estrela que se ostenta no céu tão simplesmente, que nem se dá conta da própria luz.
Há muitos e muitos anos, Neide Barros Rêgo, com sua magistral interpretação, vem revelando a beleza de tantos poetas. Agora, ela mesma revela-se.
Não há como fugir à sina. É preciso render-se ao fado. Exatamente isso ela reconhece em sua Peregrinação. Em destaque, dois trechos dessa caminhada:
Até quando, poeta, irás pelo caminho,
em busca de beleza, alegria e ternura,
doando tua vida e todo o teu carinho
à peregrinação que há séculos perdura?
A poesia é teu vício, é teu vezo e teu vinho.
E remédio não há. Este mal não tem cura.
Continuas na faina e nunca estás sozinho.
Tantos vivem também na constante procura!...
Agora é acompanhar esta bela peregrinadora pelos caminhos secretos e seguir seu vôo, que asas tem o poeta, no rumo do infinito. E seguir seu rastro, por onde vai a malha tão fina da sua rede a recolher alegria e dor.
Sintamos a força do seu estro:
no precioso enleio da comparação, da metáfora:
É mais fácil mergulhar até a escuridão do
[mar profundo, ferir a ostra e
[colher uma pérola negra
do que chegares a mim e colocares,
em meu peito, uma esperança e,
[em meu dedo, um anel.
Sou tumulto, mar revolto,
tempestade, vendaval.
Sou embarcação perdida
em bravio temporal.
no gotejar marcante do polissíndeto:
Não me interessam mais
nem astros,
nem anéis,
nem pérolas,
nem tu.
na expressividade da antítese, da prosopopéia:
Não sou santa, sou megera.
E o vento em fúria, louco de cíume,
transforma-se em terrível vendaval.
Abrindo alas, deixemos passar Chiquinha com seu cortejo de assonâncias e aliterações. Acompanhemos o delicioso ritmo das estrofes destacadas:
A Chiquinha chegou
e chegou toda chique!
Uma faixa amarela
enfeitando a cintura.
Veio alegre, sorrindo,
esbanjando emoção,
muita graça e feitiço,
cantando... dançando...
levando um pandeiro
batendo na mão:
xique-xique xique-xique
xique-xique xique-xique
xique-xique xique-xique
Diz o respeitado escritor Alceu de Amoroso Lima:
Há sempre uma poesia aos vinte anos. O difícil é conservar o amor da poesia e particularmente o dom e a inspiração dela, depois dos quarenta. A vida é terrivelmente despoetizadora. É tão difícil conservar a Fé, como conservar a poesia da vida. Tudo concorre para nos tornar céticos e prosaicos. A fé, como a poesia, são vitórias contínuas contra a perene mediocrização da vida.
E aqui temos essa admirável criatura, Neide Barros Rêgo, fiel à poesia.
Assim, tão bem responde ao apelo da sua inesquecível mestra, Maria Sabina, que clama:
Não silenciem o canto
que o canto do poeta vem de tudo:
vem do alto,
vem de longe,
vem do fundo,
vem de tudo o que tem morte e tristeza,
vem de tudo o que tem angústia e medo,
vem do sonho, do êxtase e esperança,
vem da criança, do pássaro, do amor.
Assim, seguindo suas pegadas, Neide, em versos de grande beleza metafórica, conclama:
Vai, poeta
arreia o corcel do vento,
cavalga no arco-íris,
galopa em teu pensamento,
mergulha no território
mais secreto da emoção.
E volta a ressoar a voz tão bela:
Trago-te versos...
É Neide Barros Rêgo com sua braçada de flores que se transformam em versos - Revelação.
Niterói, em 18 de outubro de 2002 - Neusa Peçanha.