| Livro: | Por um Mundo Melhor / Por pli Bona Mondo |
| Autor: | Sylla Chaves |
| Apoio: | Fundação Getúlio Vargas |
| Preço: | R$ 20,00 |
Desde muito jovem, guiado pela intuição, tenho meditado sôbre os benefícios que adviriam para as relações humanas em nosso planeta se fôsse adotado um instrumento de compreensão internacional, uma linguagem escrita, falada e entendida por todos os homens, de todos os povos e nações.
Em minha concepção, seria uma língua materna universal, paralela à língua materna nacional e aprendida em todos os países do mundo, desde o jardim de infância. Tal como o sistema métrico decimal foi padronizado, também não haveria dificuldade em padronizar a ortografia e a fonética, mediante utilização simultânea de livros e discos.
Isso implicaria tremenda economia de tempo para a humanidade. A energia mental poderia ser utilizada mais racionalmente, pois a existência de uma língua verdadeiramente universal tornaria sem sentido o aprendizado de mais de duas línguas. Somente os especialistas, para efeitos de erudição ou por diletantismo, dar-se-iam esse trabalho, hoje indispensável a quem quer que deseje ultrapassar os umbrais da cultura geral ou especializada.
O sistema métrico, a escala musical, os fusos horários e a sinalização rodoviária comprovam a viabilidade de uma língua universal. O desenho de uma flecha e outros símbolos semelhantes em uma placa de estrada transmitem igual informação a todos os automobilistas - mesmo que sejam nacionais dos mais diversos países e que seus idiomas nada tenham em comum.
Essa intuição, que eu tive, outros também tiveram. A história registra inúmeras e persistentes tentativas, surgidas em tôdas as partes do mundo e destinadas à elaboração de uma língua universal.
Em verdade, a idéia da criação de uma língua para uso de todos os povos vem dos tempo bíblicos. Os Anais da Idade Média citam a elaboração de uma língua universal por Santa Hildegarda, no século XII. O surto das Universidades, no século XIII, e o progresso dos estudos teóricos e especulativos fizeram com que o Latim prestasse grandes serviços como idioma internacional, mas unicamente para a Igreja, para os sábios, para os mestres e os letrados.
Mas logo o Latim perdeu essa função universalizante, talvez pelas dificuldades de sua gramática e pelo fato de se haver tornado um idioma quase exclusivamente escrito. Os sábios e pensadores, sentindo-lhe a falta, começaram a pensar em um meio de o substituir.
O filósofo e matemático francês René Descartes, em 1629, é o primeiro autor de cuja contribuição se tem informação precisa no que concerne ao advento de um idioma neutro auxiliar. Em sua opinião, esse idioma só é possível se condicionado rigorosamente a várias prescrições, dentre as quais, por ele julgadas essenciais, as três seguintes:
Nos anos que se sucederam, sábios europeus de várias nacionalidades dedicaram-se com afinco à solução do problema. Inúmeros projetos apareceram. Johann Joachim Becker, em 1661, elaborou uma escrita numérica que seria decifrada por processo semelhante ao empregado para ler textos criptografados.
No ensaio intitulado Dissertatio de Arte Combinatória, o grande filósofo alemão Leibniz apresentou seu sistema - a pasigrafia, ou "arte de se tornar compreendido, através de sinais escritos comuns, por todos os povos da Terra, quaisquer que sejam os idiomas que eles falem, bastando que eles conheçam esses sinais comuns". A pasigrafia difundiu-se pela Europa e gerou várias obras e estudos, na tentativa de seu aperfeiçoamento.
Quase todos os sistemas então ensaiados falharam: eram projetos de línguas ideográficas, alguns extremamente complexos, outros quase esotéricos.
Já na segunda metade do século XIX se abandonou a idéia de uma linguagem universal ideográfica: os estudiosos do problema passaram a encarar a possibilidade de uma língua universal fonética.
Menade bal, puki bal (para uma humanidade, uma língua) - é a divisa sob que surgiu o Volapük, idioma inventado em 1880 por Monsenhor Johann Schleyer. A notoriedade do Volapük chegou a ser bastante grande. Seu vocabulário, porém, organizado com preocupações filosóficas, infringiu o princípio cartesiano da internacionalidade. Tornou-se o idioma impossível de falar-se, o que foi demonstrado pelas tentativas feitas e provocou o seu insucesso.
Pouco depois do Volapük surgia o Esperanto de Zamenhof, o genial médico e filósofo polonês de Bialystok. Seu projeto, publicdo em 1887, intitulava-se Lingvo Internacia. O pseudônimo usado pelo autor, Doktoro Esperanto (O Doutor que tem Esperança), deu origem ao nome do idioma.
Considero o esperanto a língua internacional artificial que oferece maior possibilidade de universalização, não só pela disseminação que já alcançou, muitíssimo mais extensa que a de qualquer outra, mas também pelo caráter verdadeiramente universal de sua origem (por oposição ao Ocidental, ao Basic English e ao próprio Latim).
Entrevistado pela editora russa Posrednik sobre o valor do Esperanto, em 27 de abril de 1894, respondeu o grande romancista Leon Tolstói:
"Tendo recebido, há seis anos, uma gramática de Esperanto, além de um vocabulário e artigos escritos nessa língua, depois de não mais de duas horas de estudo, eu já podia se não escrever pelo menos ler desembaraçadamente nesse idioma... Verifiquei muitas vezes como os homens têm relações hostis entre si, apenas por causa do obstáculo material que resulta da falta de compreensão recíproca. O ensino e propaganda do Esperanto é, portanto, sem dúvida uma causa cristã, que contribui para a criação do Reino de Deus, o que representa o único e grandioso objetivo da vida humana. Os sacrifícios que fará todo homem do nosso mundo europeu, consagrando algum tempo ao estudo do esperanto, são tão pequenos, e os resultados que podem advir são por tal forma grandes, que ninguém pode recusar-se a fazer essa experiência."
Muitíssimas outras personalidades de todo o mundo se têm manifestado em favor do Esperanto. Este livro não seria suficiente para mencioná-las todas, do Papa Pio X a Gandhi, homens de todas as religiões, cientistas como Elisée Reclus, literatos como Romain Rolland, políticos e homens comuns, de todas as cores e credos, todos vendo no esperanto o dispositivo mágico da congregação universal.
Bilac, o príncipe de nossos poetas, encantava-se com a melodia do Esperanto. E Medeiros e Albuquerque, nosso grande polígrafo, assim se expressou:
"A Torre de Babel caiu. Mas a torre dos sonhos bons, o farol de cujo cimo se hão de poder iluminar todos os povos do mundo, há de elevar-se até o mais alto dos céus, pedra a pedra, firme e seguramente. E essa torre de sonhos bons, esse farol é o esperanto."
Benedicto Silva