| Livro: | Não só Idealistas, mas Realizadores |
| Autores: | Diversos |
| Editora: | Liney |
| Preço: | R$ 7,00 |
O Esperanto é a língua internacional criada pelo doutor Lázaro Luís Zamenhof (Polônia, 1859 - 1917). Baseia-se nas principais línguas do mundo moderno, aproveitando de cada uma o que tem de melhor. Combina, por exemplo, a flexibilidade do inglês com sonoridade e a clareza de pronúnica do italiano. Embora não seja o idioma pátrio de nenhum povo, já é falado por mais de um milhão de pessoas espalhadas por todo o mundo, colocando a todos em pé de igualdade em suas relações internacionais.
Em 1981, no auditório do Congresso Nacional, em Brasília, abrindo o 66º Congresso Mundial de Esperanto, assim falou nosso Vice-Presidente Aureliano Chaves: "Nenhuma língua carrega em si o aspecto de neutralidade e de ser desarmada, por excelência, como o Esperanto. Ela não é intrusa, ela não é estrangeira... ela não invade as nossas individualidades, não arromba as portas das nossas comunidades por força da prevalência, mas penetra nas nossas comunidades porque desejamos que assim seja, porque abrimos as portas para que isso aconteça."
No Brasil, o Esperanto lançou raízes no início deste século e se desenvolve graças as trabalho voluntário de idealistas vinculados às mais diversas áreas do conhecimento humano. Mas o que é ser esperantista? Por quê nos preocuparmos com uma língua internacional? Como conciliar idealismo com nossas necessidades e dificuldades do dia-a-dia? Reunindo depoimentos de esperantistas empreendedores, esta obra oferece respostas a tais questionamentos e reafirma que o Esperanto é uma solução lógica, viável e efetiva para o problema da comunicação entre as nações.
Já não têm conta as vezes que tenho sido interrogado sobre meu interesse e atuação relativos ao Esperanto. Tenho respondido em entrevistas, em trechos de livros e, até mesmo, diante de câmeras de televisão, como no Sem Censura e no Jô Soares Onze e Meia. Hoje eu responderia com uma única palavra: maktub! Em árabe: estava escrito! Na minha religiosidade indefinida, não sei se foi Alá que presidiu a confecção da trama do meu destino, ou se foram guias espirituais que estabeleceram as linhas mestras de uma nova encarnação que se aproximava. Só sei que os "graus de liberdade" de que disponho para planejar minha vida deixam muito pouca escolha. O essencial - maktub!
Pretendi ser arquiteto. Fui parar na Faculdade de Direito. E acabei professor de comunicação social na Fundação Getúlio Vargas. Na crise da adolescência eu quis buscar o desconhecido ingressando na Marinha Mercante ou tornando-me comissário de bordo em vôos internacionais. Mas o destino preferiu lançar-me em Nova Iorque como funcionário do Secretariado Internacional da ONU.
Depois fui parar duas vezes em Paris: como bolsista da ONU e como funcionário da Unesco. Sempre com pouca intervenção minha. E, em 1970, recebi curiosa visita em minha sala de professor da Escola Brasileira de Administração Pública. Contou-me o visitante, técnico da Unesco, que pretendia fazer mestrado de comunicação social em Stanford, segundo ele, a melhor universidade do mundo nesse campo. Interessei-me. E o curioso é que o destino havia programado outra coisa. Quem foi parar em Stanford, naquele mesmo ano, não foi ele, fui eu. E foi lá que aprendi a informática e a pesquisa que, ao meu regresso, ensinei durante mais de vinte anos. Indiscutivelmente, maktub!
Até hoje só residi em cinco cidades: Rio de Janeiro, Nova Iorque, Paris, São Francisco (ou melhor, Palo Alto, na sua vizinhança) e Santana do Livramento, onde nasci. Nas centenas de outras cidades que conheci nunca estive por mais de dois meses. Nessas cinco cidades que mencionei, minha convivência com o Esperanto foi intensa.
Tudo começou em Santana do Livramento, aos meus sete anos. Mário Prestinari, fervoroso esperantista gaúcho, passou por lá e entusiasmou meus pais e irmãos mais velhos a estudarem com ele a Língua Internacional. Dessa época ficaram em minha memória apenas algumas palavras soltas, como kokideto (pinto). E com minha irmã Marília ficou seu excelente caderno, de que mais tarde me vali, como auto-didata, para mergulhar no Esperanto e nunca mais sair.
Por volta dos meus doze anos, já no Rio de Janeiro, decidi também inventar uma língua. Se Zamenhof, como colegial, conseguiu fazê-lo, eu também conseguiria. Em meu ginásio eu já havia estudado francês, inglês, espanhol e latim. Com o português e um começo de Esperanto estavam aí seis línguas. Bastava misturá-las bem e aplicar os mesmos princípios que orientaram Zamenhof: simplicidade, clareza, flexibilidade e outros. E pronto! Minha língua estava inventada. Bastava outros a estudassem e viessem falar comigo. Envaidecido, resolvi mostrá-la a Marília que respondeu com a sensatez que sempre a caracterizou:
Sylla, estás perdendo tempo. Qualquer um pode hoje inventar uma língua, pois o caminho já está aberto. O Esperanto está aí e já provou que funciona. Se te interessa, por que não o estudas para valer?
Foi o que fiz, quatro anos mais tarde. Primeiro, usei seus cadernos e li seus livros. Depois procurei a Liga Brasileira de Esperanto, que passei a freqüentar regularmente. E, no final desse ano, com dezessete anos, recebi o título de profesoro aprobita (professor aprovado). Meu destino estava selado. Nesse ano eu tinha não só aprendido a língua, mas também assimilado os ideais e também a argumentação do seu criador. Eu já era em sentido pleno, um esperantista, um samideano. Eu já compartilhava da interna ideo, que caracteriza o Esperanto como única língua que contém em si um ideal de fraternidade universal.
Por mais três anos participei no movimento esperantista do Rio de Janeiro. E amadureci o suficiente para, depois, poder também participar plenamente no de Nova Iorque, no de Paris e no de São Francisco da Califórnia.
Um esperantista é, antes de mais nada, um indíviduo consciente de que há no mundo, um problema lingüístico fundamental que só pode ser resolvido por meio de uma língua internacional neutra. Exemplificava Zamenhof com sua cidade natal - Bialistoque, na Polônia. Na sua infância essa cidade estava dividida pelas barreiras lingüísticas em quatro grupos humanos que não se entendiam. Uns falavam polonês; outros, russo; outros, iídiche; e, outros, lituano. Os incidentes devidos a incompreensões eram freqüêntes. E Zamenhof percebeu que o mundo só viverá em paz permanente quando for adotada uma língua internacional que permita a comunicação, em pé de igualdade, entre todos os povos do mundo.
Vivenciei, também, esse problema. Por isso, transcrevo aqui um trecho do que escrevi em 1973 na revista Informativo, da Fundação Getúlio Vargas:
Minhas viagens internacionais proporcionaram-me inúmeras oportunidades para comprovar o quanto falar a mesma língua aproxima os homens. Um dos exemplos mais eloqüentes tive em minha visita à Áustria no ano festivo de 1955. Acabava-se de assinar o tratado de paz, e as tropas de ocupação deveriam brevemente deixar o país. Eu participava de um congresso de Esperanto na cidade de Linz, cortada pelo rio Danúbio. Ao sul do rio estavam os ocupantes russos. Ao norte, os norte-americanos. A sede do congresso era na zona americana; o hotel que me fora reservado era na zona russa. Diariamente eu atravessava a ponte do Danúbio, duas vezes em cada sentido. É evidente que, entre minhas recordações de viagem, eu desejava que figurassem fotografias da ponte de Linz.
Falando sobre minhas intenções com alguns companheiros congressistas, fui informado de que os soldados russos não permitiam fotografias no seu lado da ponte. Mesmo assim, resolvi tentar. A caminho do hotel, falei ao soldado americano, que me respondeu:
- Yes, you can take pictures, but only at this side of the bridge. (Sim, você pode tirar fotografias, mas somente neste lado da ponte.)
Agradeci, e continuei em direção ao hotel. Como funcionário das Nações Unidas, em Nova Iorque, eu havia feito um curso completo de língua russa. Do outro lado da ponte, fiz a mesma pergunta, em russo. E, surpreendentemente, recebi a mesma resposta afirmativa:
- A potchemú niet? Koniéchno, mójno vziát snímki zdiés. (E por que não? É claro que se pode tirar fotografias aqui!).
Percebi, então, que tinha havido apenas um problema de comunicação. Meus colegas congressistas haviam falado em inglês com o soldado norte-americano, mas ao soldado russo se haviam dirigido em alemão. É claro que deveriam encontrar má vontade.
Regressei à ponte acompanhado e com uma máquina fotográfica. Com igual amabilidade, em ambos os lados da ponte, os soldados não só permitiram que tirássemos fotografias, mas concordaram em aparecer nelas.
Há quatro maneiras básicas de comunicar-nos (ou de tentar comunicar-nos) pelas ruas do mundo.
Os mais de dez anos que, juntos, somam minhas viagens ao exterior deixaram vários exemplos de cada uma dessas formas de comunicação.
A primeira delas é falar na língua local, indiscutivelmente muito agradável: falar francês na França, italiano na Itália, alemão na Alemanha e inglês ou espanhol, conforme a conveniência, nos Estados Unidos. Foi, aliás, num dos bairros porto-riquenhos de Nova Iorque que adquiri fluência nesse idioma latino, convivendo com essa comunidade como se estivesse com ela em San Juan.
Quanto mais alto o nível da nossa comunicação, mais agradável ela se torna. Há, porém, grande vantagem até mesmo em um conhecimento superficial, que permita obter informações para andar pela cidade, bem como ser servido em lojas, restaurantes e hotéis.
Em 1955 eu viajava de ônibus de Nice para Gênova. A parada para almoço já foi na Itália, no centro de São Remo, junto a um restaurante.
Apesar de meu italiano ainda não estar "afiado", como ficou mais tarde, não entrei com meus companheiros de viagem. Preferi ficar fora, lendo o menu e os preços. Feito isso, decidi caminhar um pouco e fazer a comparação com outros restaurantes da vizinhança. Isso permitiu que, noutro lugar, eu comesse melhor, mais depressa e muito mais barato.
Comi com italianos da cidade, e não com turistas franceses. E, enquanto meus companheiros ainda esperavam ser servidos, pude passear à vontade pela linda cidade de São Remo.
Estudei árabe de 1958 a 1960 em livros para autodidatas e conversando com operários norte-africanos em Paris. Em 1960 visitei o Marrocos. Aproveitei uma viagem de Paris a Dakar, com paradas em Tânger e Casablanca. Entre essas duas cidades viajei por terra, para melhor conhecê-las e aos seus habitantes. Em cerca de dez dias visitei não só essas cidades, mas também Fez, Meknés e Rabat. Eu sabia que o francês e o espanhol, línguas dos colonizadores que se tinham retirado com a independência, permitiriam que eu me fizesse entender. Acertei pois com elas resolvi todos os meus problemas materiais. Mas foi meu árabe, rudimentar e gaguejado, que me permitiu fazer amigos durante essa linda viagem.
Fui de Tânger a Fez numa Kômbi usada como transporte coletivo. Dos passageiros apenas eu não era marroquino. Entre eles havia um estudante de direito e seu pai, bombeiro hidráulico em Marselha, vindo em férias para ver a família. Falei-lhes ora em árabe, ora em francês, quando sentia necessidade. Interessaram-se por mim tanto quanto me interessei por eles.
Eram todos de Fez. E pediram ao motorista que me deixasse na porta de uma pensão boa e barata, que recomendaram. Dormi otimamente e, na manhã seguinte, conforme os esclarecimentos recebidos, segui a pé para o bairro operário, onde me ofereceram um almoço. Pedi-lhes que fizessem tudo como se eu fosse marroquino. E assim foi feito. Numa pequena sala eu e os outros convidados sentamo-nos em confortáveis almofadas à volta de uma mesa baixa. Só homens, pois os costumes locais não permitiam que as mulheres se mostrassem a estranhos. Em bandejas de prata viam-se apetitosas iguarias árabe. Lavamos as mãos em água perfumada e começamos a comer. Comer com as mãos, na maneira popular. Tudo estava perfeito, gostosíssimo. Depois, o estudante me conduziu pelas ruelas do centro da cidade. E, apesar do tempo que já passou, Fez permanece, com todo seu encanto, na minha memória e no meu coração.
A segunda forma de comunicação ocorre na língua do viajante. É a mais freqüente no turismo de hoje. Empresas preparam-se para isso em todo o mundo, inclusive no Brasil. De janeiro do ano passado para cá já usei duas vezes uma dessas empresas. Acompanhado de outros brasileiros visitei doze países: dez na Europa e dois no Oriente Médio. Além dos guias que foram conosco, guias locais nos aguardavam. E todos sempre falaram conosco em português ou, pelo menos, em "portunhol".
Cruzando-nos com outros grupos de viajantes, nos hotéis e nos pontos pitorescos, verificamos que todos funcionam de modo idêntico. Seus guias, tantos os acompanhantes quanto os locais, falam sempre na língua do grupo, qualquer que seja ela, inclusive o japonês. Tudo de acordo com a lógica comercial e a conveniência de quem paga.
Nossa maior surpresa foi a quantidade de japoneses por toda parte. Segundo nossos guias locais, eles são, seguidos dos alemães, os principais turistas do mundo moderno. É claro que, se nosso país quiser disputar a fatia que merece no turismo internacional, terá que começar a mudar, urgentemente, suas prioridade no ensino de línguas.
A comunicação na língua do viajante é prática, mas apresenta uma grande desvantagem: mantém uma barreira entre a população local e os visitantes. Foi por isso que ela foi tão utilizada nas últimas décadas nos países totalitários. Os guias podiam, facilmente, filtrar as informações recebidas pelos visitantes. Em nosso caso não há interesse político em jogo, mas permanece a sensação de "prisão lingüística ambulante".
Quem disõe de recursos lingüísticos adicionais procura, eventualmente, escapar, comunicando-se também com a população local e mantendo olhos e ouvidos abertos. Meu árabe rudimentar permitiu proceder assim no Egito. Comparei textos em inglês e árabe. Verifiquei que nem sempre coincidiam. Nos dois idiomas estava escrito o preço normal do ingresso: dez libras egípcias; mas só em árabe havia a informação que para um nacional do país o ingresso ficava por meia libra. Comentei com o guia local, que esclareceu ser essa uma medida geral para todas as atrações culturais do país. As autoridades certamente não queriam que os turistas soubessem da diferença. Compreendi o sigilo e apreciei a medida. Eu até gostaria que algo semelhante fosse feito em nosso país em benefício do desenvolvimento cultural de nossa população pobre.
Apesar do sucesso crescente do turismo em grupo, há quem prefira viajar por conta própria. Quando não conhece a língua local, precisa utilizar uma língua-ponte. E, quando o consegue através de outra línguas nacionais, ocorre o que chamo aqui terceira forma de comunicação.
É evidente que seremos compreendidos falando inglês em qualquer hotel Hilton ou Sheraton do mundo. Ou falando castelhano na Catalunha, embora a população local fale entre si em catalão. E também seremos compreendidos em qualquer grande cidade de uma ex-colônica falando na língua de sua ex-metrópole, embora pelas ruas ouçamos quase sempre as línguas locais. Em outros lugares, porém, essas línguas-pontes podem não funcionar.
Meus leitores certamente imaginam que um poliglota, em suas viagens, só tem sucesso: quando uma língua-ponte falha, testa outra, até acertar. De fato, tive sucesso, mas menos do que esperava. Até hoje visitei apenas 34 países e deles só desconhecia a língua de seis: Israel, Holanda, Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia. A eles acrescentarei Alemanha e Áustria, pois, quando as visitei por primeira vez, em 1955, meu conhecimento de alemão era quase nulo. Como esses oito países são todos prósperos e cultos, eu imaginava não ter dificuldades em usar neles línguas-pontes. Mas tive. E é dessas dificuldades que falarei agora, dando alguns exemplos por mim "sofridos".
Em 1955, nas estações ferroviárias de Linz e Frankfurt precisei de algumas informações. E, como tudo lá só estava escrito em alemão, meu primeiro problema foi descobrir que "informação" em alemão é Auskunft. Mas a descoberta pouco adiantou, porque nesses guichês todos os "informadores" só falavam em alemão.
Em Linz, diante do insucesso, resolvi pedir aŭílio, em voz alta e clara, às pessoas em torno de mim, senhores e senhoras aparentemente de classe média:
Does anybody here speak English? Parlez-vous français? Hablan castelhano? Parlano italiano? Govoríte-li porúski?
Só nesse momento tive uma resposta salvadora. Levantou-se um tcheco, perguntou o que eu desejava e obteve, no guichê, as informações de que eu precisava.
Alguns dias depois, em Frankfurt, tive uma decepção ainda maior. Logo depois de mum chegaram à estação algumas dezenas de soldados norte-americanos. Pedi que algum deles me servisse de intérprete. Responderam amavelmente, mas confessaram que nenhum deles falava alemão. Viviam no país, mas deslocavam-se em uma "prisão lingüística ambulante".
Com muito esforço, consegui juntar algumas palavras em alemão para receber a informação desejada no guichê de Auskunft.
Mais tarde juntei o alemão à lista de minhas línguas-pontes. E foi o que me valeu em Copenhague, em 1958, e em Amsterdam, em 1979. Minhas economias não me permitiam ficar no Hilton ou no Sheraton, mas sim nos hotéis mais baratos da lista obtida no Centro Municipal de Turismo. Nesses hotéis foi possível entender-nos, em alemão, sobre preços, quarto e chave. Mas a fluência de meus interlocutores era ainda inferior à minha.
Em 1958 atravessei os países escandinavos de automóvel. Quando eu cruzava a Finlândia rumo à Suécia e ao sol da meia-noite, meu carro começou a esquentar e parei na primeira oficina que encontrei. O livrinho-guia de conversação francês e finlandês que eu trazia comigo não me valeu de nada. Entre as muitas "frases habituais" que continha, nenhuma tratava do superaquecimento nem do radiador de um carro. Não adiantou eu ser poliglota. Nem o fato de todos ali serem bilíngues, pois além de finlandês falavam também o sueco. A salvação foi sua grande boa vontade, que os fez telefonar à cidade mais próxima, de onde veio um senhor que me falava em alemão e compreendia as respostas em francês.
Mais grave ainda que uma pane de automóvel é qualquer problema na saúde do viajante, que exige diálogo preciso e delicado entre paciente e médico. Foi o que percebi nos dois meses que passei em Paderborn, na Alemanha, no verão de 1979. Efeitos colaterais de um medicamento que eu estava tomando produziram em mim sintomas de anemia aplástica, de que, na ocasião, eu não entendia nada. O especialista precisava obter e transmitir informações muito sérias. E não conseguiu, nem com o meu alemão precário, nem com o inglês dele, ainda pior. Foi chamado um médico hindu, de outro ramo, que nos serviu de intérprete. Localizamos a causa, tomei as medidas indicadas e fiquei bom. Mas percebi o risco que havia corrido. E hoje estou certo de que barreiras lingüísticas podem ser causa de morte entre os muitos milhões de operários que, cada vez mais, são forçados a trabalhar fora do seu país.
Sabendo que sou esperantista, o leitor talvez indague:
- Já que nesses casos o Esperanto também não serviu como língua-ponte, que vantagem traz para um poliglota?
Essa pergunta me leva à quarta forma de comunicação: uma língua internacional neutra, como o Esperanto, como língua-ponte entre todos os povos do mundo. É exatamente por ser poliglota que pude comprovar a gravidade do problema lingüístico e a impossibilidade de resolvê-lo através de hegemonias passageiras disputadas com a forças das armas, do dinheiro e da propaganda. A solução sensata é o Esperanto, mas ainda não foi implementada plenamente.
Por ora há apenas pouco mais de um milhão de esperantistas espalhados entre os bilhões de habitantes do mundo. E nosso diálogo talvez prossiga assim:
- Então, pelas ruas do mundo, não se fala Esperanto?
- Fala-se, sim, mas relativamente pouco. Ainda menos que o português. Nossa língua é uma das doze faladas por mais de cem milhões de pessoas. E o Esperanto é uma das duzentas faladas por mais de um milhão. Isso já é uma boa colocação entre os mais de três mil línguas faladas no mundo.
- E é possível encontrar esperantistas por acaso pelas ruas?
- Algumas vezes. Lembro-me, por exemplo, de um cobrador de bonde, em Haia, e de um motorista de táxi, em Colônia. Um reconheceu a língua que eu falava com outro passageiro. Outro, a estrela verde que eu trazia na lapela. Esses encontros casuais são ótimos, mas raros.
- E por que analisar separadamente uma forma de comunicação assim tão rara?
- Ela só é rara nos encontros casuais que proporciona. Foi muitíssimo freqüente nos encontros que programei. E para eles não precisei procurar o milhão de esperantistas espalhados pelo mundo, mas apenas os cem mil atuantes em organizações nacionais e internacionais, pois podem ser encontrados em alguns milhares de cidades, em mais de 120 países, em todos os continentes. O que mais me serviu foi o anuário da UEA (Universala Esperanto-Asocio), com endereço e telefone de mais de dois mil delegados. Sempre que viajo carrego esse anuário comigo.
- E tem servido?
- Muito. Uma carta prévia ou um telefonema já nos põe em contato com alguém na cidade, que não é um serviçal, mas um amigo. Se foi o árabe, e não francês que me abriu as portas de Fez, foi o Esperanto que me abriu as postas de Oslo (na Noruega), de Malmö e Estocolmo (na Suécia), Helsinque e Sômero (na Finlândia), Roterdam e Haia (na Holanda), Haifa e Beer-Sheva (em Israel), Valência e Sabadell (na Espanha), Paderborn, Munique e Colônia (na Alemanha) e muitíssimas outras cidades.
- E o que faz uma língua abrir portas melhor do que outras, além da fluência com que é usada?
- No caso do árabe, em que minha fluência era (e ainda é) pouca, já relatei o que me aconteceu em Fez. Somam-se ao uso da língua outras circunstâncias. E o resultado é a amizade já no primeiro encontro. O mesmo já me ocorreu, também, com o Esperanto, o espanhol e o inglês.
- O espanhol e o inglês?
- Sim, principalmente aos meus vinte anos, quando saí, pela primeira vez, de meu país, para ingressar no Secretariado Internacional da ONU. Nova Iorque estava submersa na onda de chovinismo que corria o país, provocada pelas palavras do senador Joseph Mc Carthy, que estava no auge da sua popularidade.
O chovinismo fecha portas, não as abre!
Exatamente. Por isso, valeram-me o Esperanto e o Espanhol. Nessa ocasião foi ótimo encontrar os braços abertos do Clube Esperantista de Nova Iorque. E também os da comunidade porto-riquenha, atingida pelo preconceito tanto quanto nós, os estrangeiros da ONU.
Mas você menciona também o inglês abrindo portas...
- É verdade, pois o ataque dos chovinistas provoca a reação dos antichovinistas. E foram exatamente esses que atuaram em suas comunidades (religiosas, cívicas e outras), convidando grupos de funcionários da ONU, de quaisquer raças e nacionalidades, para passarem fins de semana como hóspedes em casas de família, com programas conjuntos especialmente organizados para esse fim. Queriam mostrar que nos Estados Unidos também se combate o racismo e o chovinismo. Abriram os braços, e nós também. E foi assim que tive ótimos fins de semana em Boston, Providence, New Haven, Filadélfia, Baltimore e diversas outras cidades dessa linda região.
- E como o Esperanto abre portas?
- Basicamente, da mesma forma. Só que atua no mundo todo, qualquer que seja a língua falada no país. O Esperanto é uma língua simples, clara, rica e bonita. Por isso é relativamente fácil e agradável o seu aprendizado. Mas o que nos une não é isso. É o esperantismo, é a idéia interna, que nos torna samideanos. E, com isso, as portas se abrem.
- E como isso tem ocorrido em suas viagens?
- Como eu já disse, uso muito o jarlibro, o anuário da UEA, geralmente com prévia troca de cartas. Graças ao Esperanto e ao esperantismo, fui hóspede de famílias que entre si falavam línguas que eu desconheço, como o holandês, o sueco, o finlandês, o hebraico, o húngaro e o catalão. O jarlibro da UEA valeu-me até mesmo sem correspondência prévia. Por exemplo, em Oslo, em 1958. Entrei de automóvel na cidade, sem conhecer ninguém. De uma cabine dei alguns telefonemas e, no terceiro, tive sucesso. Identifiquei-me como esperantista brasileiro recém-chegado de Paris em um Renault-Dauphine azul claro com estrela verde no vidro traseiro, estacionado junto à estação ferroviária. Alguns minutos depois, chegou meu novo amigo. Conduziu-me a uma pensão boa e barata onde me entenderiam em francês. E indicou-me alguns passeios para fazer sozinho até o fim de semana, quando ele e a esposa viriam acompanhar-me.
- No turismo o Esperanto funciona. Mas a ciência requer precisão que talvez ele não tenha.
- Já comprovei sua adequação muitas vezes. Por exemplo, com meu colega Dr. Helmar Frank, da Universidade de Paderborn. Fui várias vezes seu intérprete no Brasil e ele meu intérprete na Alemanha. Para finalidades turísticas não precisávamos de intérprete, pois podíamos falar o idioma local. Mas nossas conferências requeriam muito maior precisão.
- Quais os temas dessas conferências?
- Falei sobre os problemas sociais do Brasil da década de 70. E ele discorreu sobre psicologia e pedagogia cibernética.
- Por que não falaram em outra língua, em vez de recorrerem ao Esperanto?
- Nossa segunda melhor opção seria o francês, pois ele também estudou na França, como eu. Mas tanto eu como ele nos sentimos muito mais seguros usando o Esperanto como língua-ponte.
Talvez o leitor se interesse mais pela comunicação escrita que pela oral. E talvez argumente, como outros que já ouvi, que basta o inglês para que se possa ler tudo que de importante se escreve no mundo. Eu responderia:
- Antes de mais nada cabe reafirmar que o Esperanto é uma solução sensata, não uma realidade já vitoriosa. Considerando as dificuldades enfrentadas pelos esperantistas, os 50 mil títulos catalogados na biblioteca da Associação Britânica de Esperanto empolgam. Mas essa quantidade que o Esperanto atingiu em 100 anos, é menos que a metade do que se publica em inglês por ano. E, se as tiragens totais dos sucessos em Esperanto medem-se em milhares, em inglês medem-se em milhões. Quanto a traduções, porém, até o inglês é uma língua pobre.
Como assim?
- Refiro-me a uma análise que fiz do Index Translationum da Unesco para a Universidade de Stanford, em 1971. 40% das traduções do mundo são feitas a partir do inglês. Mas para o inglês traduz-se relativamente pouco: cerca de 3500 títulos por ano, o que coloca o inglês em pé de igualdade com o francês, o espanhol, o alemão e o russo. Em relação a traduções, todas as línguas são pobres. Além disso os livros a serem traduzidos são decididos por grupos financiadores com seus interesses comerciais e propagandísticos e com suas limitações quanto à disponibilidade de tradutores. As traduções fluem dos países ricos para os países pobres, do Ocidente para o Oriente, das maiores línguas para as menores e raramente em sentido contrário.
- Dê algum exemplo.
- É fácil, e o Index Translationum comprova. De que línguas mais se traduz para o português? Do inglês e do espanhol, línguas que estudamos na escola e ouvimos nas ruas e na TV e, por conseguinte, consta que somos capazes de ler no original. Faltam-nos, porém, traduções do suahili, do urdu, do chinês e, até mesmo, do japonês e do árabe, tão importantes no mundo de hoje e tão difíceis para um brasileiro comum.
- Os livros também estão sujeitos à lei da oferta e da procura. O mercado vai certamente adaptar-se às novas necessidades do mundo.
- Não estou tão certo disso. A sofreguidão da produção em massa tem levado o mundo à destruição dos ecossistemas e ao consumismo desenfreado. Se não fosse a reação imediata dos ecologistas e a defesa do consumidor, estaríamos hoje à beira do caos. A democratização da cultura no mundo moderno também exige uma solução drástica que racionalize a ação dos tradutores. Só com a convergência das traduções para uma língua única, fácil e neutra, conseguiremos acesso simultâneo a todas as culturas do mundo, vencendo as reações dos imperialismos lingüísticos.
- O que os esperantistas estão fazendo nessa direção?
- Duas coisas. A primeira é mostrar a viabilidade da solução drástica. A segunda é, livro a livro, continuar traduzindo para o Esperanto de todas as literaturas do mundo.
- E você traduz muito para o Esperanto?
Relativamente pouco. Sou mais escritor do que tradutor. Já ganhei dinheiro como intérprete e como tradutor, mas hoje agrada-me mais produzir meus próprios originais.
O leitor que deve ter seus pés firmemente apoiados no chão, talvez já esteja cansado de meu "sonho" de um mundo melhor com a adoção oficial do Esperanto. Para sobreviver, neste mundo de concorrência acirrada, é indispensável ganhar dinheiro. Sendo escritor em Esperanto, como é que eu sobrevivo? E por que, sendo poliglota, não escrevo em inglês, para conseguir grandes tiragens?
Acontece que os "homens práticos" também desconhecem as dificuldades das profissões alheias. Não sabem, por exemplo, que, para cada Pelé que enriquece, há milhares de jovens que aceitam jogar futebol em pequenos clubes, em troca de casa, comida e roupa lavada. Para cada Roberto Carlos há milhares de músicos, cantores e compositores correndo atrás de um pequeno cachê, ou suplicando por um rápido aparecimento num programa radiofônico. A venda, a preços de hoje, de um único quadro de Gauguin teria salvo esse pintor da miséria de seus últimos anos. Para cada best-seller que aparece, as universidades americanas jogam no mercado milhares de escritores, geralmente fadados a nunca conseguir a publicação de um único livro.
- E como você conseguiu sobreviver e publicar?
- Maktub. O destino permitiu que eu nunca precisasse procurar um emprego. Convites e concursos resolveram tudo. Nunca tive um salário de "marajá", nem tenho hoje aposentadoria privilegiada. Mas minha vida sóbria tem deixado economias para o tempo das vacas magras, que já chegou.
- E quem financia suas obras?
- De início, foram terceiros. Traduzi e produzi textos didáticos em português. Ganhei dinheiro e prestígio, e tive sucesso e reedição. Quando se intensificou minha produção em Esperanto, resolvi financiá-la eu mesmo. Primeiro, com aŭílio de meus pais. Depois, sozinho.
- E como ocorreu isso?
- Maktub. Em 1978 fui eleito presidente da Liga Brasileira de Esperanto. Entre minhas várias prioridades estava a renovação de seus métodos didáticos. Por isso, escrevi, gravei e publiquei meu Aŭdu kaj Lernu (Ouça e Aprenda), para ensino em sala de aula, pelo rádio, por correspondência e, até mesmo, para autodidatas. Como a Liga não tinha recursos, tive de financiá-lo. Está hoje em 3ª edição, com o título adicional Curso Básico de Esperanto.
- O que caracteriza seu método?
- Tenho vários métodos, pois, depois desse, fiz outros, como o Kantu kaj Lernu (Cante e Aprenda) e um cartaz disco-curso. Todos contém muitos desenhos e são acompanhados de discos e fitas. Além disso, o vocabulário apresentado segue listas de freqüência obtidas cientificamente.
- Métodos assim devem custar caro.
- Tive colaboração gratuita de outros esperantistas. Mas, para garantir a qualidade, tive de pagar músicos, cantores e desenhistas profissionais. E, também, muitas horas num bom estúdio. Desempenhei vários papéis: escritor, diretor, letrista, compositor e financiador. Mas estou satisfeito com o que consegui realizar.
- E você tem perdido ou ganho dinheiro?
- Driblando a alta de custos, atribuindo remuneração zero a meu trabalho e cobrando preços razoáveis, tenho conseguido zerar meu prejuízo. O lucro aqui compensa o prejuízo ali. Isso me basta.
- Todas as suas obras são didáticas?
- De certo modo, sim. Em sentido estrito, não. Entre outras coisas, escrevi, também livros de leitura fácil. E compilei dicionários e antologias.
- Se o seu lucro como "empresário" é zero, qual é sua vantagem?
- Desde meu primeiro emprego sempre trabalhei por prazer. Algumas vezes recebi pagamento; outras, não. E isso me permitiu sobreviver e ser feliz. Fui feliz trabalhando na ONU e na Unesco e fui feliz dando aulas. Além disso, durante cinco anos de minha vida, ganhei dinheiro apenas para estudar. Maktub. O dinheiro veio, sem eu procurar, sempre que precisei. Quero contribuir para o aprendizado dos outros, quero ser lido, quero ser apreciado. E isso tenho conseguido. Talvez se possa chamar isso vantagem.
- Você gosta de receber prêmios?
- Aplausos, elogios sinceros e sorrisos de satisfação já são para mim um prêmio suficiente. Também me agrada ver trabalhos meus colocados em antologias. Mas prêmios em dinheiro também já recebi. De todos o que mais me agradou foi, em 1991, o prêmio Onisaburo Deugchi, pela contribuição de minha obra em Esperanto para a paz mundial e a solidariedade entre os povos. Mais do que os 2 mil dólares do prêmio agradou-me a constatação de que, graças ao Esperanto, estou sendo lido e apreciado do outro lado do mundo.
- Qual é seu best-seller?
- No Brasil, é o Curso Básico de Esperanto. No mundo, são os livros de leitura fácil, como Libera Ekflugo (Partida em Vôo Livre) e La Estonto Dependas de Ni (O Futuro Depende de Nós), além do Originala Esperanta Bildvortaro (Dicionário Ilustrado Original em Esperanto).
- E você agora só escreve em Esperanto?
- Não. Empolguei-me tanto quando escrevi La Estonto Dependas de Ni, que, logo depois, publiquei sua tradução: O Futuro Depende de Nós. E agora estou preparando adaptação de meu Bildvortaro para diversas línguas . A adaptação para o português já está quase pronta. Vai chamar-se Dicionário Ilustrado do Quotidiano.
- Essas atividades têm ocupado todo seu tempo?
- Não. De 1990 para cá uma outra tem-me ocupado ainda mais: a alfabetização de adultos.
- Como assim?
- Em 1990 elaborei, testei e lancei, com o endosso do IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal), uma cartilha e um conjunto didático que chamei pré-cartilha. Na ESG (Escola Superior de Guerra), em 1992, meus estudos sobre o assunto transformaram-se num trabalho especial (TE-92, tema 186): Alfabetização de Adultos - Propostas de Equacionamento. E, desde então, venho colaborando com o Cômite Rio, da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, prestando assessoria para implantação desse método em comitês locais.
- E de que consta esse método?
- Isso já seria tema para um livro. Só cabe aqui ressaltar a semelhança de meus pontos de vista sobre o ensino de Esperanto e a alfabetização de adultos. Em ambos os casos, considero, por exemplo, que:
Talvez o leitor pergunte, ainda, o que acho do futuro do Brasil e do mundo. Por isso, passo a responder.
- Sou otimista. Acredito que um dia teremos todos paz e justiça, alimentação e cultura. Os homens respeitarão uns aos outros e também às comunidades e aos ecossistemas em que estão inseridos. E também acredito que todas as línguas, grandes e pequenas, serão preservadas, como parte das culturas que representam, e ficarão unidas entre si por uma grande língua, rica, simples e neutra, a única capaz de carregar em si toda a diversidade da cultura universal.
- E quando teremos esse mundo melhor?
- Não sei. Provavelmente, não chegarei a vê-lo. Mas, no que me compete, estou sempre carregando tijolos para sua construção. Quanto ao Esperanto, já tenho tido uma grande ventura: pertenço ao pequeno grupo que viaja pelo mundo usando a Língua Internacional e, graças a isso, aqui e ali, com grupos esparsos, tenho podido antegozar as delícias desse mundo em que todos se compreenderão. Maktub.
Rio de Janeiro-RJ, 5.4.95