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Olhos no Futuro

Tido hoje como a opção mais lógica e natural entre as existentes, o idioma inglês avança a passos largos no mundo, principalmente dos negócios, a postar-se como a língua capaz de suprir todas as necessidades de comunicação entre os mais diferentes povos e culturas. Tanto nisso se acredita que basta olharmos ao nosso redor para nos depararmos com o crescente mercado de instituições e profissionais voltados ao ensino e a difusão desse idioma. E na esteira da chamada globalização, o Brasil caminha, cada vez mais, no sentido de fazer do uso do inglês uma rotina entre os seus, seja na escola, através da obrigatoriedade de seu aprendizado a partir do ensino básico, seja no trabalho, com sua utilização cada vez mais constante nos negócios com empresas de diferentes nacionalidades; ou ainda no cotidiano, ao tornar cada vez maior seu contato com a cultura de países anglófonos, através de filmes, músicas, costumes etc. E esse fenômeno não ocorre por acaso, nem tão pouco se restringe a países como o Brasil. A crescente necessidade de comunicação entre diferentes nações é fruto de um mundo globalizado onde, principalmente a internet, figura com papel de destaque. Um mundo onde o comércio, a política e os interesses comuns mudam, dia a dia, a geografia, criando blocos e anulando fronteiras, ainda que virtualmente. E o avanço da tecnologia tem nos possibilitado uma agilidade tal nos meios de comunicação, que acaba por nos privar da noção de tempo e espaço, como se o mundo todo habitasse uma telinha.

Sem dúvida que isso tem significado um avanço imensurável no caminho do entendimento e da fraternidade globais, objetivo comum à maioria quase que absoluta da humanidade. E já haveríamos de estar às cercanias desse entendimento, não fosse uma básica limitação: a barreira lingüística. O problema, que remonta aos primórdios da humanidade, continua a impedir a plena compreensão entre as diferentes culturas. Sem conhecer sua língua, um forasteiro não poderá senão tatear a cultura de um povo. Conseqüentemente jamais alcançará plena compreensão sobre sua forma de agir e de pensar, bem como sobre suas crenças e costumes. Isso acabará por induzi-lo a uma visão limitada e por vezes até preconceituosa sobre o conjunto ao qual observa. A solução estaria então em aprender-lhe a língua. Mas isso demandaria tempo e dedicação extremados, caso quisesse realmente obter-lhe fluência. E assim o seria para todas as demais. Mas tempo é unidade estreita em um mundo onde urge a necessidade de intercâmbio com um leque cada vez maior de lugares e pessoas. A solução estaria então no uso comum de um idioma, capaz de figurar como uma "ponte dialética". E a isso tem se prestado o inglês. Certo?... Errado!

Vários estudos e outros tantos exemplos práticos demonstram a fragilidade do modelo atual que adota o inglês como veículo internacional de comunicação. E várias também são as razões para isso. A primeira delas refere-se ao fato de ser o inglês uma língua materna e trazer com ela, inevitavelmente, a cultura que a gerou. Ao adotá-la para um convívio mais íntimo, não se adquire somente um idioma mas um pacote de usos e costumes que, invariavelmente, acabará por miscigenar-se à cultura local em detrimento de ambas. Outro fator que concorre para a dificuldade de uso do inglês diz respeito a extensão de seu vocabulário e a complexidade de sua ortografia, com abundância de irregularidades e exceções, tornando-o, para a maioria dos estrangeiros, de difícil domínio. Isso contribui para a limitação de expressão desses frente aos nativos da língua inglesa. Ainda que o locutor possua riqueza de idéias e conhecimentos, não possuindo ampla fluência e domínio de pronúncia, não transmitirá, nesse idioma, mais do que frases pobres e de limitada compreensão. A isso some-se as variantes do inglês faladas nos diversos países que o tem por língua pátria e até dentro de um mesmo país e que, em casos extremos, acabam por dificultar a compreensão e o entendimento até mesmo entre dois nativos do idioma.

Outra forte razão e de origem mais profunda diz respeito a resistência natural que determinadas culturas têm em relação a outras. Ao viverem, no passado, extensos períodos sob a bandeira do colonialismo, passam a visualizar a adoção, para intercâmbio, de um idioma alheio, como nova imposição de costumes estrangeiros, fato inaceitável para muitas. E a elas não importará se a opção se faça pelo inglês, francês ou qualquer outra das inúmeras possibilidades. É imprescindível, nesse contexto, que a escolha não possa representar a uns o benefício e o proveito de que não desfrutarão os demais. Sim, pois que aos nativos do idioma adotado se dará, sem dúvida, larga margem de vantagem em relação aos outros, visto estes já possuírem domínio lingüístico, poupando-lhes o tempo e a dedicação necessários ao aprendizado. E quando seja o objetivo global o de caminharmos juntos, a patamares melhores, nada mais justo que o façamos com igualitárias condições. A começar pela justiça de uma democracia lingüística.

Porém, ainda que o passado já nos tenha demonstrado a ineficácia do uso de idiomas maternos para fins de intercâmbio, o fato é que o mesmo caminho percorre agora o inglês. A atual condição de carro-chefe da economia global, vivida pelos Estados Unidos, somada ao prestígio britânico, têm feito por induzir o restante do mundo, há algumas décadas, ao uso de seu idioma nas relações internacionais, porém não sem conseqüências adversas. O imperativo de seu uso, para muitos, já basta para gerar resistência, como o foi no passado para os demais, acabando por tornar improfícua sua abrangência. E basta nos atentarmos aos fatos para lobrigarmos, mundo afora, situações de conflito e problemas oriundos desse quadro. A influência cultural advinda do uso, por uma nação, de outra língua materna, tem causado perdas irreparáveis. Temos exemplo caseiro, quando da imposição do português aos povos indígenas, que acabou por minar-lhes a identidade e a própria cultura. Sempre haverá sobre esse fato argumentações de que a imposição cultural, além de significar progresso e avanço importantíssimos, ocorreu em tempos remotos e sobre culturas primitivas. Sim, há que se concordar com isso, indubitavelmente. Porém ainda assim não deixou de extinguir inúmeros conhecimentos e costumes dos povos a ela expostos, até mesmo o idioma em alguns casos. E como esse, existem exemplos mais recentes, qual o da Irlanda. A totalidade de seu povo hoje tem fluência no idioma inglês, porém a grande maioria perdeu o domínio sobre a língua irlandesa já há quatro gerações. Processo semelhante começa também a viver a Suécia, com o uso crescente do inglês, quer no ensino médio, que em algumas escolas passou a ser ministrado também nesse idioma, além do materno, e em todas as matérias; quer nos meios cultural e científico, qual o da medicina, onde as matérias e até mesmo o curso passam a ser ministrados em inglês. Também os livros de medicina, na sua maioria, são escritos em inglês e, conseqüentemente, as teses de doutoramento também. O resultado que se vem observando desse fato, é o declínio crescente do idioma materno nessa área. Já não se criam mais novos termos para novos conceitos. Isso culminará com a perda total de alguns domínios, quando, por exemplo, já não mais será possível descrever-se partes do conhecimento médico usando-se termos suecos.

Mas, a se preservar desse perigo, diversos países criam mecanismos de proteção sobre suas línguas maternas. Entre eles, os próprios Estados Unidos onde, em 21 de seus 50 estados, já existem mecanismos legais a impedir o avanço do idioma espanhol sobre o inglês. E nada mais justo que todos os povos tenham preservados seus idiomas e culturas, sem os quais serão incapazes de manter a própria identidade. Mesmo assim, a crescente anglicização de idiomas no mundo tem, com o advento da informática, assumido proporções alarmantes. Erroneamente pensamos fazer uso de palavras e expressões universais quando, na realidade, as estamos assumindo de outro idioma materno em detrimento de nosso próprio vocabulário. Palavras em português como "sítio", "experto" e "recorde", caem no esquecimento e, para muitos, simplesmente inexistem pelo uso constante e habitual de suas correspondentes inglesas "site", "expert" e "record". O Movimento de Defesa da Língua Portuguesa (MDLP), através de sua página na rede mundial de computadores (ver: www.novomilenio.inf.br/idioma/), faz a seguinte observação: "Mais de 3.000 termos estrangeiros foram incluídos no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) sem qualquer estudo ou adaptação, e inclusive já desalojam de dicionários como o Aurélio Eletrônico Século XXI as palavras portuguesas eqüivalentes (como o absurdo sueco-inglês ombudswoman, incluído no lugar de ouvidoria pública)". Sem dúvida o problema tem se agravado ultimamente e, ao que parece, a Academia Brasileira de Letras não tem se dado conta disso.

Outro caso contundente da ineficiência do uso do inglês na comunicação internacional ocorre na União Européia (UE). Um estudo levado a termo pelo médico sueco Hans Malv (vale a pena ser lido: www.2-2.se/pt/ ) revela a babel em que se transformou o Órgão, que representa os interesses de grande parte dos países europeus.

Antes de maio de 2004, quando contava ainda com 15 membros, a UE já se utilizava de 11 idiomas oficiais. Em todos os chamados "textos oficiais", a publicação se fazia nesses 11 idiomas. Já para "idiomas de trabalho", teoricamente se utilizavam apenas o inglês e o francês. Ocorre que a grande maioria dos parlamentares não possuía fluência em nenhum dos dois idiomas, assim sendo, em todas as reuniões se fazia necessário o uso de intérpretes simultâneos que, a esse período, somavam a casa dos 110 para cada sessão de trabalho. E, apesar de parecer um número excessivo, se mostrava insuficiente para atender a demanda. Assim, restava aos chamados "pequenos idiomas", se contentarem com a tradução feita a partir de uma "ponte". Por exemplo, a tradução de uma oratória feita a partir do grego, para o dinamarquês, por não possuir tradutor específico, se utilizava de uma tradução do grego para o inglês e desse para o dinamarquês. Disso podemos concluir o enorme prejuízo de conteúdo, sem contar o aumento expressivo da possibilidade de erro de tradução, como freqüentemente ocorria. Outro fator bastante significativo dizia respeito ao montante gasto somente com a parafernália necessária à comunicação e ao entendimento mútuos. O valor estimado beira a casa dos 700.000.000€ anuais, dinheiro esse que poderia ser muito melhor empregado em benefício dos interesses sociais dos países membros. Agora façamos uma projeção da dimensão que o problema alcança com a inclusão, recente, dos 10 novos países e o conseqüente aumento de idiomas oficiais de 11 para 20. E se os próprios políticos mal se entendem, a ponto de serem incapazes de travar um diálogo de conteúdo, sem o auxílio de tradutores, quando se encontram pelos corredores e cafés, o que se dirá acerca do entendimento da população que eles representam, sobre os problemas debatidos na UE? População essa que passa, a partir de agora, dos 381 para aproximados 455 milhões de pessoas e com uma parcela significativa cujos idiomas nem estão contemplados entre os 20 oficiais. Sim o problema é dramático. E a prova de que o inglês não tem servido a causa de veículo oficial de comunicação, fica evidente quando se verifica a impossibilidade de se prescindir da tradução simultânea nas reuniões de trabalho e que, a partir de agora, deverá ter o número de profissionais aumentado de 110 para 380 por sessão.

Onde estaria então o caminho para se derrubar a barreira lingüística na comunicação global, atendendo ao mesmo tempo a necessidade e o interesse das nações de maneira justa e igualitária? Os caminhos apontam para a adoção de uma língua capaz de reunir os atributos de neutralidade, facilidade de aprendizado e abrangência de vocabulário, de maneira a que possa exprimir todos os ramos do conhecimento humano sem deixar de ser, ao mesmo tempo, acessível à maioria da humanidade. Outra característica indispensável é a de que ela não possa exercer, sobre as demais, influência cultural capaz de colocar em risco a integridade das línguas maternas, em especial as consideradas "pequenas". Sob esse prisma, a lista de possibilidades se torna bastante restrita, porém não inviável.

Em seus quase 120 anos de existência, o Esperanto - língua criada com a finalidade de se tornar um idioma auxiliar na comunicação entre os povos - tem se prestado a essa finalidade e com louvor. Por não se tratar de idioma materno, tem preservada a característica de língua neutra. A regularidade de sua gramática nos possibilita rico vocabulário a partir de mecanismos simples como o uso de prefixos e sufixos que, aliados a raízes diversas, ampliam em várias vezes o rol de palavras conhecidas. Dessa forma, o esperanto é capaz de abranger e exprimir qualquer nuança de qualquer idioma que se deseje, e permitir seu uso em textos de cunho técnico, científico, filosófico, artístico, comercial etc. Possui oficialmente uma população falante superior a 2 milhões de pessoas espalhadas em mais de 100 países, com uma projeção extra-oficial que se aproxima dos 10 milhões de falantes. Com um acervo de mais de 40.000 obras publicadas, dos mais variados assuntos e na maioria traduzidas de diversos idiomas, o Esperanto tem encontrado mais e mais adeptos mundo afora. Seu ensino já é tido como disciplina regular em diversas escolas no mundo e chega a 110 o número de universidades, em 22 países, que ensinam o idioma, entre outros a China, a Coréia do Sul, a França, o Brasil e o Japão.

O aprendizado do Esperanto, inúmeras vezes mais fácil do que qualquer outro idioma materno, tem possibilitado uma rápida habilitação das pessoas ao intercâmbio internacional, a desfrutar de conhecimentos e culturas os mais variados. Outro fator também de relevada importância diz respeito ao chamado "efeito propedêutico", que faz do Esperanto uma ferramenta de facilitação do aprendizado, quer seja do idioma materno, quer seja de outros idiomas.

Mas seja por um ou por outro motivo, o fato é que a utilização do Esperanto tem crescido e muito em nível global e em todos os ramos da comunicação. A disseminação do chamado "idioma neutro" tem se solidarizado através de associações, grupos e comunidades; nas escolas; nas publicações de periódicos generalistas ou específicos; nas correspondências e intercâmbios; nos programas de rádio e televisão e, principalmente, através da rede mundial de computadores. O mundo virtual tem sido meio importantíssimo de divulgação e propagação da língua. A prova está no número, sempre crescente de sítios, grupos e assuntos relacionados ao Esperanto. O retorno, em qualquer dispositivo de busca da rede, tem sido generoso com, alguns, ultrapassando a casa do 1,5 milhão de resultados. E isso tem despertado a atenção dos provedores de rede, que, em alguns casos, já começam a dar importância diferenciada ao assunto. O Terra tem estimulado a curiosidade de seus usuários sobre o assunto, levando-os a discutir e conhecer mais sobre o Esperanto.

Mas é certo que o mundo ainda não descobriu no Esperanto o prisma econômico que tem feito do inglês o alvo atual das atenções. Porém ele não só existe, como já começa a ser explorado, possibilitando interessantes oportunidades de comércio e intercâmbio, enquanto descortina novo nicho de mercado.

E em sua trajetória de reconhecimento e consolidação globais, o Esperanto prossegue dando ao mundo mostras inequívocas de sua viabilidade como veículo eficaz de comunicação. Os reflexos desse avanço podem ser sentidos nos crescentes movimentos e atitudes positivas que têm feito dele alvo de discussões junto a entidades e organismos com alcance internacional. A Unesco, por duas vezes já se pronunciou sobre o idioma, reconhecendo seus objetivos e conclamando seu ensino nas escolas e seu uso nas questões internacionais. Na Igreja Católica, que já possui núcleos esperantistas desde o início do século XX (assim como diversos outros ramos do cristianismo), ele tem ganho espaço, seja em pronunciamentos papais ou transmissões radiofônicas do Vaticano. E como que a se preparar para os novos tempos, a Igreja Católica começa a discutir a viabilidade da substituição do latim - que já há algum tempo não figura como unanimidade entre o clero - pelo Esperanto, como seu idioma oficial de trabalho em âmbito internacional. Também a União Européia, cuja eleição do novo parlamento agrega mais simpatizantes do idioma neutro, sobretudo por parte dos países recém-membros, se vê às voltas novamente com o debate sobre a adoção do Esperanto como uma de suas línguas de trabalho. Mais do que isso, vê surgirem tentativas no sentido de que, experimentalmente, ele seja usado e avaliado com a profundidade que merece. Outra iniciativa em âmbito internacional parte do Rotary, que põe em discussão a adoção do Esperanto como sua língua internacional de trabalho.

Assim, de maneira expansiva, o movimento de conscientização sobre a necessidade de um entendimento global mais efetivo, sem prejuízo da preservação de idiomas e culturas cresce, ao mesmo tempo em que converge para os princípios esperantistas. E a nos dar largas mostras de sabedoria, nossos irmãos aborígenes, na defesa de suas culturas, se unem em torno do chamado "Diálogos Indígenas", programa que visa a fortalecer o diálogo entre povos indígenas do mundo. E para isso deixam de lado as línguas dos ex-colonizadores e usam o Esperanto como meio de comunicação.

E sejam contrárias ou afins, as correntes acerca do Esperanto, o fato é que todas concordam quanto a necessidade premente de um entendimento global, na busca da fraternidade entre os povos. Entendimento esse que as barreiras lingüísticas têm feito por retardar e que os atuais modelos de comunicação, alicerçados no idioma inglês, não têm conseguido atingir.

E nessa encruzilhada em que nos encontramos, já não mais sei se aprimoro o meu oxidado inglês, a garantir-me um mínimo de expressão, ainda que com medíocre vocabulário e limitado alcance, ou se me adianto em direção ao mandarim, no vislumbre da tendência de não andar tão distante o dia em que a ciranda de poder, tão natural na existência humana, traga à luz a hegemonia chinesa em detrimento da soberania econômica americana. E tenho para comigo que, nesse dia, não se preocuparão nossos orientais amigos em esforçar-se para serem compreendidos por um mundo que, afinal, gravitará ao redor deles.

Pensando bem, melhor mesmo é continuar minha jornada rumo ao Esperanto, no trabalho pela sua compreensão, aceite e difusão, na certeza de que a humanidade buscará soluções mais justas para seus problemas. Prosseguir no rumo de um futuro onde, em lugar da injusta competição, na qual um contendor, a possuir curinga de berço, relegue os demais oponentes à inapelável condição de desvantagem, haja a cooperação, na união de esforços em benefício do bem comum. E que possa esse futuro não andar assim tão distante, posto que só depende de nós.

Obrigado (Dankon)

Autor: Oscar Prevides Júnior. Junho/2004

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