Texto adaptado da palestra sobre o tema "Guimarães Rosa: ĉu Esperantisto?" (Guimarães Rosa: Esperantista?), apresentada durante o 40º Congresso Brasileiro de Esperanto, ocorrido em Porto Alegre, de 19 a 23 de julho de 2005.
A primeira menção que ouvi sobre o envolvimento de Guimarães Rosa com o esperanto foi durante o Congresso Internacional da SAT, que ocorreu em Campos do Jordão, SP, Brasil, de 6 a 13 de agosto de 1988. Naquela ocasião, Lilian Ledon, filha dos saudosos Gilbert e Symilde Ledon, fez uma palestra a respeito do assunto. Infelizmente, cheguei atrasado e só consegui acompanhar parte dela. Entre outras coisas, ela disse que sua pesquisa a respeito do tema ainda não estava concluída e, ao mesmo tempo, incentivou que outros fizessem o mesmo.
Passaram-se alguns anos. Lilian Ledon adoeceu e não deu continuidade à sua pesquisa. Então, há quatro anos, decidi aceitar o desafio.
Minha primeira fonte de pesquisa foi o livro "Anais do XV Congresso Brasileiro de Esperanto", Clube de Esperanto de Niterói, 1957. Na página 178, pode-se ler o seguinte:
"Por esse tempo (1929), o hoje médico e diplomata João Guimarães Rosa, o discutido escritor de "Sagarana", então funcionário da Secção de Estatística do Estado, onde também militava Teixeira de Freitas, juntamente com êste, inovam ambos o sistema de comunicações internacionais daquele setor especializado.
Anteriormente, a correspondência com o estrangeiro era feita em diversas línguas desejadas.
Foi quando, em abril de 1929, Teixeira de Freitas e Guimarães Rosa decidiram que tôda correspondência da Estatística com o exterior seria escrita, única e exclusivamente, em Esperanto.
Se o destinatário da correspondência não conhecia a língua de Zamenhof era fácil. Bastar-lhe-ia ir em busca do delegado da Universala Esperanto-Asocio, pois, em cada carta, havia a indicação: "Internacia Korespondado en Esperanto", e êle o traduziria para o interessado em sua língua natal.
"Esse passo já avançado do trabalho internacional da Secção de Estatística de Minas foi o germe que originou a monumental colaboração do I.B.G.E., posteriormente criado e que, hoje, é talvez, a organização estatal que dá ao Esperanto e aos esperantistas o mais franco e decidido apoio.
São sem conta as obras editadas pelo Instituto em Esperanto. O Movimento Esperantista Brasileiro, que tanto lhe deve, há de ser grato também àquela experiência, que nos longínqüos idos de 1929, dois denodados batalhadores da causa faziam na pequena Secção de Estatística do Estado de Minas Gerais".
Essa informação é confirmada pelo tio de Guimarães Rosa, Vicente Guimarães, na obra "Infância de João Guimarães Rosa", páginas 44/45:
"Vários idiomas, muitos, já dominava na juventude. Quando estudante de Medicina, trabalhou na Estatística, em Belo Horizonte. Seu chefe, Dr. Teixeira de Freitas, precisando de uma pessoa para cuidar da correspondência em esperanto, chamou o jovem funcionário, já poliglota, e sugeriu que aprendesse a língua de Zamenhof. Seria o esperantista do serviço.
Jozito matriculou-se num curso e em vinte e sete dias recebeu o diploma, por já reter sabido e compreendido os conhecimentos todos do novo idioma. Escrevia e falava corretamente".
Na página 12 do periódico "Brazila Esperantisto", de julho-dezembro/1929, encontramos pegadas sobre a participação de Guimarães Rosa em atividades do movimento esperantista brasileiro:
"CRÔNICA BRASILEIRA/MINAS GERAIS"
Em 1o. de julho houve uma reunião do "Montara E-Klubo"....
... Leu um conto por ele escrito o Sr. João Guimarães Rosa..
"Minas Geraes" publicou um artigo do Sr. Ary Theodolindo sobre "O Filme Falado"; uma série de artigos interessantes do Sr. João Guimarães Rosa".
A respeito de artigos sobre o esperanto escritos por Guimarães Rosa, encontramos informações nos "Anais do XV Congresso Brasileiro de Esperanto", página 177:
"... Ari Teodolindo foi também presidente do M.E.K. Sob sua gestão, idealista e dinâmica, o M.E.K. atingiu excelente desenvolvimento. Por essa época, fêz o Clube publicar no "Minas Gerais" diversos artigos de difusão da língua e da Idéia, subscritos por seus sócios.
É assim que anotamos os seguintes:
"A estrutura lógica do Esperanto. Algumas justificações. Um pouco de filosofia comparada" - Em 31.7.1929 - de autoria de João Guimarães Rosa. (Veja Anexo no 1).
No "Estado de Minas", de 23 de julho de 1929, também dentro da "Semana do Livro Esperantista", João Guimarães Rosa, o hoje consagrado autor de "Sagarana" e "Corpo de Baile" publicava: "A estética do idioma de Zamenhof" (Veja Anexo no 2).
Pela leitura desses dois artigos de Guimarães Rosa, constata-se que ele estava plenamente convicto da viabilidade do esperanto para a solução do problema lingüístico internacional.
No entanto, a atividade de Guimarães Rosa como esperantista provavelmente não durou muito tempo, uma vez que, em 1930, ele conclui o seu curso de medicina, deixa Belo Horizonte e vai para o interior de Minas Gerais a fim de trabalhar como médico, em pequenas cidades. Em 1934, faz um concurso para a carreira diplomática e é aprovado. A partir daí, trabalha como diplomata, em diversos países, ou em tarefas de assessoria diplomática, em diferentes repartições do Itamarati, no Brasil.
Isso significa que Guimarães Rosa deixou de ser esperantista? Aparentemente não, pois, em diversas ocasiões, ele deixou testemunhos sobre o respeito que tinha em relação à língua internacional.
Vicente Guimarães, tio de Guimarães Rosa, registra, em seu livro "Joãozito, Infância de João Guimarães Rosa", a seguinte informação:
"Alguns muitos anos depois, em meu apartamento no Flamengo, após o jantar, num encantador e prolongado bate-papo, transformado quase em uma deliciosa monoconversa - a palavra era dele, nossa apenas de quando em longe, para perguntas que renovassem os temas - minha filha Marli quis saber se o esperanto era assim tão fácil, que se podia aprendê-lo em 27 dias, como ele tinha feito. Sorrindo, respondeu: "Você, minha linda priminha, sabendo um pouco de alemão, francês, russo, espanhol, italiano, grego e latim, e a gramática de algumas outras línguas, o esperanto se torna facílimo".
Nesse mesmo livro, em resposta a uma pergunta feita numa entrevista a uma prima de Curvelo, ele assim se expressou:
"Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, ESPERANTO, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. Eu acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração".
Sua filha, Vilma Guimarães Rosa, na obra "Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai", também registrou o interesse dele a respeito de línguas em geral e, em especial, sobre o esperanto da seguinte maneira:
"Meu pai iniciou-se no francês e no alemão, que mais tarde conhecia por plano e profundeza, línguas e dialetos. Relacionou-se em amizade com o espanhol, o italiano, o inglês, o sueco, o dinamarquês, o holandês, o russo, o polonês, o lituano, o húngaro, o tcheco, o romani, o árabe, o hebraico, o japonês. O grego. E com o sânscrito, mãe de todas as línguas. Com o esperanto e o tupi."
Segundo informações de Agnes Guimarães Rosa do Amaral, uma das filhas de Guimarães Rosa, com quem tive um contato telefônico, ele gostava muito de aprender idiomas e o esperanto significou para ele um mundo totalmente novo. Tinha em alta conta a língua internacional e sempre incentivou as filhas a aprenderem o esperanto. Infelizmente, disse, ela não seguiu o conselho paterno e conseguia lembrar-se apenas de uma frase em esperanto, entre as muitas que o pai ensinara a ela: "Leono estas besto!" (= Leão é um animal).
Em 1950, houve um contato de Guimarães Rosa com o movimento esperantista. Na qualidade de Secretário da Embaixada Brasileira em Paris, ele saudou, em nome do governo brasileiro, os participantes do 35º Congresso Mundial de Esperanto, ocorrido naquela cidade. A revista "Brazila Esperantisto", em seu número de setembro/dezembro daquele ano, registrou o fato assim:
"Na Sessão Solene de Abertura, à qual compareceram mais de 2000 representantes de toda a superfície da Terra, usaram da palavra o Sr. Jean Tomas, Diretor-Geral da UNESCO, em nome da Organização das Nações Unidas, os representantes de diversos governos que enviaram Delegações ao Congresso e as organizações nacionais de Esperanto. Pelo Governo do Brasil falou o nosso samideano Dr. J. Guimarães Rosa e pela Liga Brasileira de Esperanto o Dr. Benjamim Camozato."
Ao noticiar seu falecimento, ocorrido em novembro de 1967, o número de abril/junho de 1968 do mesmo periódico, publicou o seguinte necrológio:
"Nia eminenta samideano Ambasadoro João Guimarães Rosa, konata verkisto kaj membro de la Brazila Literatura Akademio mortis la 19-an de Novembro 1967, en Rio de Janeiro.
Poligloto, li regis ankaŭ Esperanton, kiun li lernis ankoraŭ juna en Belo Horizonte.
Kiel Delegito de la Brazila Registaro li reprezentis nian landon en la XXXV Universala Kongreso de Esperanto en Parizo."
("Nosso eminente coidealista Embaixador João Guimarães Rosa, conhecido escritor e membro da Academia Brasileira de Letras morreu em 19 de novembro de 1967, no Rio de Janeiro.
Poliglota, ele dominava também o Esperanto, que aprendera ainda jovem em Belo Horizonte.
Como Delegado do Governo Brasileiro, ele representou nosso país no XXXV Congresso Universal de Esperanto em Paris")
Após essas considerações, penso que Guimarães Rosa era, sem dúvida alguma, um sincero admirador do esperanto. Ele não só aprendeu a língua, mas também, durante certo tempo, foi um ativo participante do movimento esperantista. No entanto, permanece um aspecto digno de ser pesquisado na relação do escritor com o esperanto. Trata-se da provável influência do esperanto na obra literária de Guimarães Rosa. Na "Enciclopédia da Literatura Brasileira", página 1182, Afrânio Coutinho, no verbete sobre Guimarães Rosa, escreveu o seguinte:
"...o seu processo de captação da realidade caracterizou-se também pelo esforço da valorização da palavra, de criação de uma linguagem própria adequada à representação de seu mundo mítico do sertão. Nessa tarefa de recriação da linguagem, usa todos os recursos, desde a invenção de vocábulos por vários processos, até os arcaismos e palavras populares, e invenções semânticas e sintáticas ..."
A pesquisa sobre esse assunto seria digna de uma tese universitária. Esse trabalho, entretanto, deve ser feito por mãos mais competentes!
Aloísio Sartorato
kkeesperanto@ig.com.br
Artigo de João Guimarães Rosa publicado no "Minas Gerais" de 31 de julho de 1929 (segundo a ortografia da época). Guimarães Rosa estava com 21 anos.
Tentando-se localizar precisamente o esperanto entre as 1.500 linguas e variedades dialectaes existentes no globo, constituirá elle, certamente, um ramo novo, enxertado no tronco da grande familia indo-européa.
Conforme a classificação racional, que leva apenas a estructura, podemos denominal-o lingua analytica; segundo a classificação natural, bem mais objectiva, é elle um idioma do typo composto, polysyllabico ou agglutinante.
Fructo do raciocinio e da intelligencia humana, verdadeiro producto de linguistica experimental, destinando-se a ser a lingua internacional auxiliar, o esperanto devia ser, como realmente é, lógico, perfeito e facilmente manejavel.
Há, entretanto, uma série de argumentos, á primeira vista irreplicaveis, que põem em cheque a sua perfeição e exequibilidade. De tão serias accusações, eis as principaes:
por tudo isso, dizem os esperantophobos, o idioma de Zamenhof deve ser vetado nas suas aspirações a lingua medianeira cosmopolita, pois, si bem que isento das taras que pesam sobre as linguas naturaes, vivas ou mortas, resente-se, todavia, de defeitos congenitos muitissimo mais graves.
Passemos em revista cada um desses quesitos.
São 4 os processos de adaptação phonetica admittidos pelos modernos linguistas: adaptação physiologica, baseada nas mudanças de alimentação, clima e costumes, que affectam o apparelho vocal; adaptação psychologica, fundamentada nas disposições psychicas e nas preferencias collectivas das raças; adaptação historica, baseada na influencia exercida pelas linguas umas sobre as outras; adaptação intellectual, que se esteia na interferencia deliberada e consciente.
O esperanto pode ser considerado um idioma já completamente evoluido, na formação do qual influiu directamente o processo de adaptação intellectual.
Na sua evolução, as linguas têm um periodo pregrammatical, irregular, cahotico, babelico, no decorrer do qual se fazem sentir com grande intensidade as influencias de clima, costumes e temperamento; é então que as formas dialectaes se disputam a hegemonia, produzindo as mais variadas mutações, que constituirão, ulteriormente, as arestas e as irregularidades da lingua.
Depois intervêm o raciocinio, a intelligencia, a actuação consciente, controlando as tendencias evolutivas desordenadas. Fixa-se deliberadamente a morphologia dos vocabulos, organiza-se a syntaxe, e a lingua progride dahi por deante norteada por regras mais ou menos racionaes, codificadas na grammatica.
Conforme A. Sechehaye, "os factores pregrammaticaes são productos da vida affectiva, os factores grammaticaes são os da vida intellectual".
Assim, os classicos e os grammaticos, desenvolvendo, corrigindo, polindo, limando, mutilando, às vezes, fazem tarefa puramente artistica, e todo idioma nacional possue, em maior ou menor dose, o elemento artificial.
O sanscrito, identificado por Schleicher, no seu Compendium, como a lingua mãe aryana ou indo-européa, foi, sem duvida, na opinião accorde dos philologos e historiadores, uma lingua artificial, compilada e fixada á custa dos archaicos dialectos védicos, pelos grammaticos hindustanicos, dos quaes Panini foi o mais importante (IV seculo a. Christo).
Nota-se nas linguas modernas, e este phenomeno pode ser perfeitamente observado no Brasil, a divergencia de certas formas grammaticaes, na linguagem falada e escripta.
É que na conversação predominam as tendencias instinctivas, ao passo que na linguagem escripta são melhor obedecidos modelos e regras anteriormente fixadas; em outras palavras, a linguagem escripta é actualmente artificial, contrapondo-se ao desenvolvimento natural da lingua.
No esperanto não existem palavras inventadas a esmo, mas todos seus radicaes foram colhidos, em selecção rigorosa, dos ramos mais importantes da familia indo-européa.
Os das raizes componentes do seu vocabulario são genuinamente latinos; o restante deriva dos grupos germanicos e balto-slavo, através do allemão, inglez e russo, contribuindo este ultimo com exiguo contingente.
É bem relativa portanto a artificialidade da "internacia lingvo".
Não obstante possuir cada uma o seu nucleo caracteristico, patrimonio primitivo, as linguas evoluem entremesclando-se, assimilando-se reciprocamente, alterando a phonetica e a syntaxe por influencias mutuas; não raro a propria medulla da lingua resente-se de pureza, contaminada intensamente, mau grado a vigilancia xenophoba dos puristas, tão subtis são os disfarces que velam os vocabulos "penetras" e as expressões de contrabando.
É a adaptação historica de Van Ginnenken.
Foi enorme, profunda, a influencia latina soffrida pela lingua ingleza através do francez; podemos constatal-a examinando um trecho qualquer da literatura desse idioma, que póde tambem, com razão, ser chamado hybrido.
E o que aconteceu ao inglez, deu-se, menos intensamente, é certo, com o allemão e com as linguas letto-slavas.
Tambem a linguagem scientifica, nutrindo-se do latim classico e do grego antigo, invade continuamente os idiomas modernos: si tal endosmose não altera em quasi nada as neo-romanas, filhas do latim e netas do grego, imagine-se o quanto contribue para heterogenizar a seiva das slavas e germanicas essa exumação de idiomas fosseis.
As linguas não tem fronteiras, e nunca se approximaram tanto os povos da terra como agora.
Nos centros cosmopolitas, nos portos de mar onde resoam e se misturam os idiomas mais diversos, brotam interessantissimos argots, hybridos de feições características, com syntaxe propria e tentativas embrionarias de literatura.
Espalhados por todos os paizes do mundo, mantendo inalterada a lingua-mãe semitica, e conhecendo geralmente muitas outras, os Israelitas, que são quasi sem excepção eximios polyglotas, crearam pouco a pouco o seu jargon, mescla heterogenea, cujo estudo é muito util sob o ponto de vista philologico.
Portanto, a hybridização das linguas parece ser uma tendencia evolutiva natural, e o Esperanto póde ser considerado o precipitado, scientificamente previsto, da reacção das linguas occidentaes em mistura intima.
Já se foi o tempo em que se consideravam os typos de linguas - isolante ou monosyllabico (chinez) mongolico, etc, agglutinante (hungaro, finlandez, etc.) e flexional (indo-européas), como etapas diversas da evolução dos idiomas.
Hoje, nenhum linguista ou philologo admitte mais isso.
Pelo contrario, a flexão tende a perder terreno em certas linguas da Europa; por exemplo, nas linguas do ramo germanico occidental (Westgermanisch), como o hollandez e principalmente o inglez, onde os monossilabos abundam, póde-se observar uma curiosa passagem do estado inflectido ao estado isolante.
Portanto, esta objecção não deve ser levada em conta, e o Esperanto, como lingua agglutinante, gosa da vantagem de restringir o numero de radicaes, utilizando copioso contingente de affixos.
No Esperanto, todas as palavras têm como tonica accentuada a penultima syllaba, sendo a ultima sempre baryphonica; assim certos radicaes têm muitas vezes o accento deslocado ao passar para a lingua auxiliar.
Ex.: angelus, torna-se angêlo (1), etc.
Esta regra immutavel de pronuncia é taxada de anti-natural e rebarbativa.
É erronea, todavia, essa affirmação.
Primeiramente, não existe uma correspondencia exacta das syllabas accentuadas dos radicaes, mesmo em linguas filhas do mesmo tronco; ex.: o francez diz politique, ao passo que nós accentuamos politica.
Quanto mais remoto é o parentesco, maiores são as divergencias; o russo pronuncia geográfia, quando latinos e ou monosyllabico chinez, mongolico, grafi(...).
A deslocação do accento nos radicaes póde ser observada sob um aspecto interessante nos dialetos Kashmawa e Amahuaka, da familia Pano, falados no alto Purús e no alto Juruá, nos quaes ella ocorre quasi systematicamente.
Alem disso, ha linguas vivas, naturaes e nacionaes, onde a accentuação das palavras obedece á mesma regra fixa.
Assim, em polonez, a penultima syllaba (tal qual como no Esperanto), é sempre a tonica, e quando se trata de um radical importado, com a accentuação diversa, desloca-se a tonica com maxima semcerimonia, isto é, nacionaliza-se a palavra.
Em finlandez o accento tonico recae invariavelmente sobre a primeira syllaba.
Essa regra de accentuação, plenamente justificada, traz dupla vantagem ao Esperanto - grande vacilidade (2) e elegante cadencia rythmica.
Depois desta tentativa de defesa, cumpre-nos citar dois argumentos pro-Esperanto.
O primeiro é a solução pratica do problema da escripta phonetica. Na lingua de Zamenhof, cada som corresponde a uma só letra e cada letra figura um unico som.
O segundo é a reconciliação da grammatica com a logica, pois, embora ambas reconheçam a lingua apenas como expressão do pensamento, andavam ha muito divorciadas nos idiomas da terra.
João Guimarães Rosa (da UEA e do MEK)
Artigo de João Guimarães Rosa publicado pelo jornal "O Estado de Minas", no dia 23 de julho de 1929 com a ortografia da época.
Na época, Guimarães Rosa tinha 21 anos.
A linguagem nasceu de um instincto; manejada com virtuosidade, tornou-se uma arte.
Todavia os idiomas prestam-se diversamente à expressão da eloquencia e da literatura.
Cada lingua se adapta às caracteristicas colletivas de ordem esthetica do povo que a fala.
Ha - as rudes, pesadas, eriçadas de consoantes, abundantes em monosyllabos, cheias de choques consonantaes, aspirações fortes e attritos de vogaes, tonalizadas nos sons vocalicos anteriores (e, o, u) a custo deizando-se (1) esculpir pelo artista, como as linguas septentrionaes da Europa, que tão bem condizem com a frieza, a tenacidade e a energia dos scandinavos, batavos, britannicos e tentões.
Outras, quaes as neo-latinas, são claras, cantantes, clangorosas, ligeiras, ricas de matizes, capazes de expressar todos os lampejos do pensamento humano, linguas feitas para os madrigaes e declarações de amor, nascidas sob rosaes e laranjeiras, entre o céo azul e a espuma prateada do Mediterraneo ...
O bulgaro sôa duro e metallico como aço; o russo e o servio são suaves; o francez prima pela sobria elegancia; o alto allemão é gutural e de sons energicos; o finlandez é delicado, e o italiano dulcissimo.
Certamente a mais doce lingua falada pelos homens foi o dialecto jonico.
O dr. Zamenhof, creador do esperanto, alem de polyglotta era tambem um poeta. Não lhe bastava que a nova lingua tivesse tronco robusto e raizes bem fixadas - ella ficaria imperfeita sem a corôa de flores a variegar-lhe o verdor das frondes. Por isso, ao lançar as bases do idioma internacional, elle agiu principalmente como artista.
Sob esse ponto de vista, tentemos analysar, superficialmente, a "helpa lingua" (2)
Em esperanto, as letras apparecem na proporção de 45% de vogaes para 57% de consoantes, em media, como acontece nas linguas mais doces e sonoras taes como o portuguez, o hespanhol e o italiano. As linguas do grupo germanico exigem muito maior percentagem de consoantes.
No inglez, allemão e francez o E predomina visivelmente, no italiano o I ou o A; no portuguez e no esperanto o mesmo acontece ao A; o que se patentea pelo exame de qualquer trecho escripto nessas linguas.
O esperanto é, portanto, como o portuguez, uma lingua em A, o que lhe confere agradavel sonoridade, pois o A é a articulação primitiva, som normal e básico da voz humana, vogal cheia, clara e musical, predominante aos rumores e ruidos da natureza.
Sendo a penultima syllaba das palavras a tonica accentuada, e a ultima sempre a baryphonica, resulta disso elegante cadencia rythmica, que relembra a harmonia dos antigos dialectos da Hellade.
O esperanto tem as terminações de seus pluraes em diphtongos, sendo muito mais doces que as das linguas europeas, excepção feita do italiano, que usam consoantes para marcar os mesmos: inglez, portuguez, francez e hespanhol - S; allemão - (...) r, (...) n; suéco - (...) r; hungaro - (...) k; polonez - ch, w; estoniano - d; finlandez - t.
Principalmente suaves são as terminações do accusativo plural (OJN, AJN), que se pronunciam como ÓIN, ÁIN dos duaes gregos, bem como as terminações verbaes, de grande fluencia.
A aspiração guttural forte HH aliás rara, não enfeia a lingua, assim como a belleza do castelhano não é alterada pelo J.
Vogaes modificadas (UMLANTE) (3) não existem, bem como certas nuances vocalicas difficeis de ser bem distinguidas.
Entretanto, não são apenas phonologicas as vantagens do esperanto.
A conservação da desinencia para o accusativo, rejeitada pela maioria das linguas ocidentaes, é no esperanto um factor de clareza e precisão, permittindo as mais variadas inversões, exigidas frequentemente pela euphonia ou pela elegancia da phrase. Além disso, possue o esperanto um accusativo de direcção, que evita certas amphibologias comuns aos idiomas dos povos civilizados.
A abundancia dos affixos, só ultrapassada talvez pela do finlandez lingua uralo-altaica, agglutinante permitte a expressão das mais delicadas nuances do pensamento; além disso, cada suffixo constitue um radical independente, podendo ser usado isoladamente, o que dá á lingua um colorido proprio caracteristico.
Os adverbios derivados constituem em esperanto uma classe illimitada de palavras, e nesse ponto o idioma de Zamenhof avantaja-se admiravelmente ás linguas nacionaes, onde ha deficiencia delles.
(Beaufront). É outrossim surprehendente o effeito artistico produzido pela forma breve dos mesmos.
Outra incomparavel riqueza do esperanto é outorgada pelos 3 participios activos e 3 passivos, susceptiveis de tornar as formas substantiva, adjectiva e adverbial. Somente atravez da literatura da "internacia lingua"(4) é possivel comprehender-se o maravilhoso recurso que constitue esse thezouro idiomatico.
Como no allemão as palavras compostas forjam-se ilimitadamente.
A suppressão da vogal da cauda dos substantivos é privilegio do estylo poetico, allias emprezadissimo, pois não faltam poetas cultores do esperanto.
E é essa lingua, de grande simplicidade e rara belleza, que está naturalmente predestinada a vehicular e divulgar as obras literarias no futuro.
Graças a ella, poderemos nós brasileiros apreciar, com seu sabor natural, as "dumi" ukranianas, as "randa" lithuanias, as "runol" finlandezas, as "Heder" allemães e os "hai-kai" japonezes.
João Guimarães Rosa - DO MEK