Antes de iniciarmos o estudo de uma nova língua, mesmo simples como o esperanto, convém pensarmos duas vezes. Todo estudo requer tempo. E tempo é dinheiro, que não deve ser esbanjado.
Simulamos uma entrevista do leitor (L) com o autor deste método (A). Já sabemos que o esperanto é a língua internacional criada pelo doutor Lázaro Luís Zamenhof, polonês que viveu de 1859 a 1917 e que é falado por mais de um milhão de pessoas espalhadas pelo mundo. Mas para quê estudá-lo? E para quê investir tempo e dinheiro na sua divulgação? Vejamos isso em nossa entrevista simulada.
L - Professor Sylla, os esperantistas não estarão chovendo no molhado, tentando resolver um problema lingüístico que não existe? Não basta aprender inglês ou francês para ter acesso às comunicações com o mundo todo?
A - Concordo que, antes de mais nada, é preciso perceber que existe um problema. Desde 1950, quando ingressei no Secretariado da ONU, em Nova Iorque, tenho vivido esse problema de comunicações internacionais. Além do inglês e do francês, estudei também o espanhol, o italiano, o russo, o alemão e o árabe. E, com todas essas línguas, ainda considero que não tenho acesso às comunicações com o mundo todo. Estou muito longe disso.
L - Sempre ouvi dizer que quem sabe inglês pode ler, em traduções, tudo que existe de importante na literatura mundial.
A - Fiz um trabalho sobre esse assunto na Universidade de Stanford. Essa afirmação é totalmente falsa. Segundo os dados da Unesco, dos livros que se escrevem no mundo, numa média anual de cerca de 400.000, há cerca de 100.000 escritos originalmente em inglês. Enquanto que, nos outros idiomas, escrevem-se cerca de 300.000 livros por ano, há apenas 3.000 traduções por ano para o inglês, aproximadamente o mesmo que se traduz para o alemão, para o espanhol, para o francês ou para o russo: 1% em relação ao que se escreve. Na verdade, não existe um só idioma rico em traduções. Existem os idiomas pobres, como o inglês, e os idiomas paupérrimos, como o português*
L - Mas ninguém é capaz de ler 3.000 traduções por ano... Certamente as traduções são poucas, mas bem selecionadas.
A - Você supõe que os homens tenham mais bom senso do que têm. Quem financia as traduções escolhe os temas de acordo com os seus interesses, e não com os do público leitor. Marxismo, controle de natalidade e assuntos religiosos estão entre os temas mais traduzidos, mostrando quem são os principais financiadores. Excetuando-se uns poucos temas desse tipo, o mundo todo é paupérrimo em traduções. E, além disso, há línguas das quais não se traduz praticamente nada. As traduções fluem principalmente dos países ricos para os países pobres, e do mundo ocidental para o oriental, deixando uma vergonhosa mancha de ignorância, no mundo todo, a respeito de uma importante parte do nosso planeta.
L - E você tem dados para demonstrar isso?
A - Muitos. Mas basta apresentar um. Comparemos os idiomas japonês e inglês. No período estudado por mim, foram escritos 35.000 livros em japonês contra os 100.000 já mencionados em inglês. A proporção de traduções recíprocas deveria ser, por conseguinte, de 3 para 1. Mas foi de mais de 1.000 livros do inglês para o japonês contra apenas 27 do japonês para o inglês.
L - É que pouca gente fora do Japão conhece o japonês.
A - Exatamente por isso as traduções são necessárias. As traduções no mundo são uma verdadeira anedota, igual a do indivíduo que estava procurando o que tinha perdido. Ele estava procurando debaixo do poste de luz, embora tivesse perdido seu objeto em um lugar escuro. Com as traduções ocorre exatamente o mesmo. Nós queremos ler traduções do que se escreve em turco, em chinês e em japonês. Mas nossos tradutores só nos apresentam traduções do inglês, do francês e do espanhol. No período que estudei, a língua da qual mais se traduzia para o português tinha sido o espanhol. E eu pergunto se esse fato não se trata de uma brincadeira de mau gosto com a nossa juventude sequiosa de cultura, que quer ler em traduções aquilo que não é capaz de ler no original.
L - Mas sem tradutores não pode haver traduções!
A - Mas há uma solução racional. Bastaria que todos os tradutores do mundo, cujo número é escasso, fossem treinados para traduzirem do seu idioma para um idioma único, que todo o mundo aprenderia.
L - Concordo que é necessário um idioma internacional para traduções. Mas não precisa ser um idioma falado. Em viagens internacionais, basta que um turista fale inglês ou francês.
A - Mais uma vez você se equivoca. Isso que você diz só é verdade no turismo de luxo. Em nenhum hotel de tipo médio em todo o mundo encontrei um só intérprete que fosse. Até em Amsterdam e Copenhague, cidades ultra-internacionais, fiquei em hotéis em que não se falava nem inglês nem francês. O idioma em que me fiz entender nesses hotéis foi o meu alemão, tão capenga quanto o do gerente. Mas acho que meu esforço valeu a pena, pela economia de preços que consegui, igual a que tive falando italiano na Itália, espanhol na Espanha e francês na França.
L - Pode-se pagar um pouco mais, mas sobrevive-se falando-se apenas inglês e francês.
A - O problema maior não é o do dia a dia das viagens, mas o dos incidentes que podem ocorrer, e que podem ser desastrosos.
L - E você já teve algum?
A - Muitos, nos dez anos que vivi fora do Brasil e nos mais de trinta países que percorri. Vou contar apenas dois. O primeiro foi no norte da Finlândia, quando meu automóvel enguiçou. Foi preciso telefonar à cidade vizinha, de onde veio um senhor que falava alemão. Ninguém na cidade dava uma só palavra nos idiomas que conheço. Todos haviam estudado sueco na escola, além do finlandês que já sabiam. E isso não me adiantava de nada.
L - E a outra experiência?
A - Essa foi ainda pior. Adoeci em 1979 na Alemanha. Como todos os médicos alemães, meu médico havia estudado inglês (e eu morei cinco anos nos Estados Unidos e não tenho nenhum problema no uso desse idioma). Mas ele foi incapaz de me diagnosticar em diálogo em inglês. A delicadeza da situação exigia uma precisão de vocabulário que ele não tinha. Foi necessário usar o meu alemão de principiante (melhor que o inglês dele) e recorrer a um médico indu (de outra especialidade) para traduzir os termos mais técnicos. Nesse momento eu percebi que muita gente morre por problemas lingüísticos. E não tenho a menor dúvida de que precisamos de um idioma internacional que seja escrito e falado.
L - Por quê, em vez de inventar um idioma novo, não se usa um idioma falado por muita gente?
A - O chinês?
L - Não! O chinês é muito difícil.
A - Difícil para você, que é ocidental. Mas o chinês é o idioma mais falado no mundo.
L - O idioma internacional deve ser o inglês ou o francês.
A - Essa é a solução do "deixa como está para ver como fica". Esses são, de fato, os idiomas mais usados na diplomacia e no turismo. Mas isso é, apenas, o reflexo da situação política e econômica do mundo de hoje. Ela pode mudar a qualquer momento, e seria outra, se os aliados tivessem perdido a última guerra mundial. Estaríamos falando alemão e japonês. Além disso, é preciso saber que a língua franca dos países comunistas é o russo, e não o inglês ou o francês.
L - Se não houvesse prevenções, o inglês seria escolhido, pois é o mais fácil dos idiomas nacionais.
A - Acho exatamente o contrário. Em termos de compreensão oral, o inglês é o idioma mais difícil que conheço. Tenho usado o inglês profissionalmente há mais de trinta anos, inclusive como tradutor e intérprete, e ainda não consigo entender muitos sotaques americanos e ingleses.
L - Esse problema ocorre em qualquer idioma.
A - Discordo. O italiano, o espanhol e o russo são idiomas muito mais claros. O inglês tem palavras menores e mais semelhantes umas às outras. Isso dificulta enormemente a compreensão oral.
L - Então poderia ser escolhido o espanhol.
A - É claro que essa seria uma escolha mais racional, e menos ditada por motivos políticos. Mas uma escolha melhor ainda é a de um idioma que tenha, simultaneamente, todas as vantagens dos idiomas que conhecemos.
L - Mesmo com defeitos, prefiro um idioma nacional, um idioma vivo, com um povo que o fala e uma cultura a que pertence.
A - É essa, exatamente, a principal característica negativa dos idiomas nacionais candidatos à internacionalidade. É ela que cria as situações desiguais e discriminatórias que queremos evitar. Basta ver o que está ocorrendo em quase todos os países pluri-lingüísticos, como a Bélgica, o Canadá e a Espanha. Os bascos e catalães, na Espanha, querem usar o seu idioma em pé de igualdade com o espanhol. Os flamengos querem igualdade como os valões na Bélgica. E até na democracia suíça, modelar em muitos pontos, os genebrinos acusam o governo de Berna de, tradicionalmente, favorecer a língua alemã em detrimento da francesa. E o problema já está surgindo nos Estados Unidos, que já são um país bilingüe. Não há quem aceite de bom grado uma hierarquia de línguas que tem como resultado hierarquizar as pessoas que disputam cargos públicos. Ou melhor, só aceitam essa situação os que têm vantagem com ela e os que não percebem que ela existe. Como brasileiro, funcionário da ONU, não pude disputar uma vaga de intérprete internacional, apesar de falar fluentemente quatro dos cinco idiomas oficiais da época (hoje são seis), porque minha língua materna é um idioma hierarquicamente inferior. E não haveria prova nenhuma que anulasse essa inferioridade que nasceu comigo e todos os brasileiros (e também com os nacionais da maioria dos países do mundo, os não privilegiados). Aceitar uma língua nacional como internacional é, por conseguinte, o mesmo que aceitar qualquer outra forma de imperialismo do mundo moderno. Só um idioma internacional neutro poderá protegera as culturas menores contra a ameaça de desaparecimento que existe por toda parte.
L - Mas uma língua é um fenômeno cultural que não pode ser criado. Não pode ter vida própria.
A - Você parece aquele indivíduo da anedota que, diante da girafa, continuava a afirmar que aquele bicho não existia. Vá a um congresso da Associação Universal de Esperanto, escute os debates, os espetáculos culturais e as palestras cientificas, e depois tire as suas conclusões. Mas não faça como alguns pseudo-cientistas do mundo moderno, que se recusam a observar a realidade.
L - Que vantagem eu terei aprendendo o esperanto hoje?
A - Você estará imediatamente em contato com a comunidade esperantista de cerca de um milhão de pessoas, espalhadas pelo mundo. Poderá iniciar uma correspondência verdadeiramente internacional. E poderá conhecer uma literatura que tem como linha mestra um ideal comum e que representa, de fato, pela sua procedência, uma cultura mundial.
L - Como se pode iniciar essa correspondência?
A - Adquira os anuários das diversas organizações esperantistas, e você terá endereços de sobra para corresponder-se com quase todo o mundo, sobre o assunto que quiser.
L - E esses anuários já lhe foram úteis alguma vez?
A - É claro. Primeiro, quando estudante. Dei início à minha correspondência internacional, e senti que o mundo encolhia nas minhas mãos. Não na distância em quilômetros, ou na distância em horas, mas na distância afetiva a que se referem os psicólogos. Parecia-me que a Nova Zelândia, o Japão e a Finlândia não eram mais longe do que algum estado longínquo do Brasil. Depois, comecei a viajar pelo mundo e fui hóspede em casa de muitos esperantistas. Pude sentir o quanto a natureza humana é semelhante, apesar das diferenças culturais. E deu também para perceber o quanto o esperanto se presta para expressar todas as nuanças do pensamento e do coração.
L - O esperanto é um idioma de idealismo. Mas não creio que equivalha aos outros em termos práticos.
A - É claro que já tive maiores vantagens financeiras com o inglês, o francês e o espanhol. Mas já usei o esperanto como idioma de trabalho, nos dois meses que passei, recentemente, na Universidade de Paderborn, na Alemanha, tratando de pedagogia cibernética. Meu alemão não era, e continua não sendo, suficiente para expressar as nuances do meu pensamento. Um artigo meu, que acaba de ser publicado na revista alemã GRUNDLAGEN-STUDIEN AUS KYBERNETIK UND GEISTESWISSENSCHAFT, foi originalmente escrito em esperanto e traduzido para o alemão por meus colegas de Paderborn.
L - Mas esse é um caso ultra-excepcional.
A - E eu não estou dizendo o contrário. Mas o esperanto ainda não deu tudo que tem para dar. E eu tive um outro caso de vantagem do esperanto que até a mim surpreendeu.
L - Conte.
A - Trabalhei na Unesco, em Paris, nos anos de 1958 a 1960. Nas férias de verão resolvi ir a um congresso na capital da Finlândia. Desejava fazê-lo de automóvel, mas, para isso, eu precisava atravessar de navio de Estocolmo para Helsinki. Eu teria pressa na ida, e voltaria com calma pelo norte da Finlândia, para apreciar o sol da meia-noite. Consultei a grande empresa de turismo WAGONS-LITS COOK, na sua agência da própria sede da Unesco, com um mês de antecedência. Prometeram-me a reserva, mas essa reserva começou a tardar. Quando eu perguntava, diziam que aguardasse. Faltava apenas uma semana para minha partida quando me disseram que lamentavam, mas que todos os navios de Estocolmo para Helsinki estavam lotados, e que eu deveria adiar minha viagem. Esse adiamento, evidentemente, seria impossível, visto que eu iria participar em um congresso. Foi quando em me lembrei que ainda não havia escrito aos esperantistas de Estocolmo. Escrevi nesse mesmo dia e recebi resposta dois dias depois; podia viajar tranqüilo, pois já haviam reservado lugar para meu carro e, além disso, convidavam a mim e a minha esposa para sermos seus hóspedes na noite anterior ao embarque. Surpreendeu-me muito que um esperantista sueco fosse capaz de dar um "jeitinho" brasileiro numa questão em que uma grande agência de turismo havia falhado. Tratava-se de um simples operário sueco, e nenhuma propina foi dada a ninguém.
L - Os esperantistas parece que são gente boa. Mas não vejo a vantagem que têm com o trabalho que realizam.
A - Em primeiro lugar, precisamos dividir a resposta em duas partes. Podemos considerar esperantistas todo aquele milhão que fala esperanto. Aprenderam, com pouco esforço, um idioma que lhes traz todas as vantagens que acabamos de ver. Mas também podemos considerar esperantistas aquelas poucas centenas que se dedicam de corpo e alma à divulgação do idioma.
L - E para quê?
A - Para ajudar a transformar o mundo. O primeiro deles foi Zamenhof. Você precisa ler a biografia desse indivíduo admirável, cujo nome é homenageado em quase todo o mundo. A cidade em que ele nasceu, Bialistoque, na Polônia, era uma pequena Babel, com todos os seus problemas. Zamenhof presenciou muitos conflitos originados de problemas lingüísticos. E foi por isso que ele deu ao mundo o esperanto. Como médico oculista e como criador do esperanto, ele ajudava os homens a se verem melhor uns aos outros e, por conseguinte, a se entenderem melhor. O que os verdadeiros esperantistas desejam hoje em dia não é aproveitar-se do esperanto, mas sim contribuir para que tenhamos um dia um mundo melhor.
L - Então o esperanto é uma espécie de religião?
A - Absolutamente não. A religião procura interpretar aquilo que a ciência desconhece. Por isso mesmo, não há um religião, mas uma infinidade delas. E por isso, também, a história está cheia de conflitos entre religiões, já que é impossível, com a luz da ciência, saber qual delas contém a Verdade, com V maiúsculo. O esperanto é uma língua, e nada mais. O esperantismo, sim, é que é um ideal. Mas absolutamente não é uma religião. Todas as suas verdades são cientificamente comprováveis e, por isso, todas as religiões o apóiam. O ideal do esperanto é o ideal de todas as religiões. Há missas em esperanto, há um grande apoio do Kardecistas, dos messiânicos, dos bahái, de várias religiões do Japão, e até mesmo do mundo islâmico, apesar de Zamenhof ter sido de raça judaica. No esperantismo cabem todos os credos políticos e religiosos, cabem todos aqueles que querem trabalhar por um mundo de paz e amor. E o esperanto, como língua que é, serve até mesmo àqueles que não querem trabalhar por coisa alguma e só cuidam de si.
L - E por quê o esperanto não sai dessa estagnação em que está? É uma língua com quase cem anos de vida... E por quê não é falada nas ruas, na televisão, nos cinemas e no rádio? Por quê não se torna um idioma oficial da ONU? Por quê não é ensinada nas escolas de todo o mundo? Por quê vocês não fazem nada disso?
A - É interessante que você mesmo fez a pergunta e deu a resposta. Enquanto vocês, que habitam o mesmo mundo que eu, respiram o mesmo ar que eu, tiveram acesso às mesmas escolas que eu e tem também cérebro e coração como eu; enquanto vocês acharem que, pelo simples fato de eu falar esperanto e vocês não, eu tenho obrigação de gastar meu tempo e dinheiro com a divulgação do esperanto, enquanto vocês ficam de braços cruzados, esperando que o mundo melhor caia do céu, esse mundo melhor não chegará nunca. Rádio e televisão custam rios de dinheiro e, que eu saiba, sua programação depende muito mais de interesses políticos e econômicos do que do bem comum. Como avalanche que desce dos píncaros de neve até os vales, a massa de neve crescendo à proporção que se move, assim também o esperanto pode rapidamente crescer e espalhar-se pelo mundo. Mas os esperantistas, aqueles que trabalham pelo esperanto, são muito poucos e seus recursos são escassos. Mude o pronome vocês pelo pronome nós. Concorde que você também tem obrigação de trabalhar por um mundo melhor. Junte-se a nós, e os problemas lingüisticos do mundo serão solucionados ainda na nossa geração.
Autor: Sylla Chaves
Fonte: Livro: Aŭdu kaj Lernu - Curso Básico de Esperanto.
Editora: Associação Paulista de Esperanto.