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De Babel ao Esperanto

(Conferencia de MEDEIROS E ALBUQUERQUE, realizada no salão nobre da Associação dos Empregados do Commercio do Rio de Janeiro)

O orador (que é saudado por prolongada salva de palmas do selecto e numeroso auditorio que enchia o salão) começa declarando que sente que os conferencistas que o precederam na serie organisada pelo Brazila Klubo já haviam de ter dito as coisas que elle vae dizer; o essencial em certos casos não é porém, o de descobrir novidades; é de repetir trivialidades. É o que ocorre com certos argumentos muito corriqueiros e faceis, mas que a rotina e velhos preconceitos injustificaveis impedem de deital-os abaixo ao primeiro impulso; é preciso batel-os, repisal-os.

E' por isso que aceitou o encargo de vir juntar mais um esforço aos outros esforços da propaganda, lembrando-se que foi elle que, ha quasi dez annos, fez a primeira ou uma das primeiras apologias do Esperanto, pela imprensa, na Revista Brazileira.

Nesse tempo, a tentativa do Dr. Zamenhof não tinha todos os altos apoios com que hoje conta. Nesse tempo, ninguem pensava que o Papa, do alto do sólio pontificio, enviasse a sua benção ao Esperanto, como fez por occasião do recente Congresso de Genebra.

Dir-se-á talvez, que, ao menos do ponto de vista scientifico, essa benção não é um argumento muito forte. Mas precisamente o Esperanto nada tem a temer dos argumentos realmente scientificos. O que se oppõe ao seu triumpho mais rapido são apenas os preconceitos. E nenhum preconceito é mais forte que o religioso. Que o chefe da religião que creou e vulgarisou o velho mytho da torre de Babel applauda os esforços feitos em favor de uma lingua universal; é um facto consideravel.

Todos sabem que as bençãos do Papa, são expedidas por uma das numerosas dependencias do Vaticano sem que elle tenha disso um conhecimento exacto. Compram-se. Tem uma tarifa marcada - e, por signal, é uma tarifa moderada. Variam os preços, não com a maior ou menor somma de direitos que dê no céu, permittindo que os que pagam mais vão, no paraiso, para melhor logar. O preço sobe ou desce com o papel em que a benção é escripta. Em pergaminho custa 11 liras; em papel menos bom custa 8. Assim, é perfeitamente licito não tomar muito a serio esse ramo de commercio.

Mas, quando o Papa abençôa uma corporação ou um congresso internacional, o caso é diferente. Elle não pode de ter disso conhecimento. De mais, os papeis que chegam ás suas mãos transitam por altos dignitarios da igreja. Passam pelo Secretario de Estado da Santa Sé.

Si, por conseguinte, esgotados todos esses tramites, o pontifice concorda em abençoar um congresso, presidido por um pastor protestante, um congresso internacional, pode-se ter como certo que no minimo isso quer dizer que o alto governo da igreja catholica acha que não se trata de uma tentativa extravagante e ridicula.

E', pelo menos, um attestado de seriedade, passado por espiritos cultos, mas em geral - e isto é que importa notar - profundamente retrogrados. A benção do Papa tem, pois, neste caso especial um grande valor: terá sido talvez o primeiro exemplo de animação dado pelo Vaticano a uma iniciativa audaciosa.

Os que tem medo de comprometter a sua sisudez austera parecendo interessar-se por futilidades, por fantasias, por tolices de desoccupados, podem abrigar-se por traz deste grande exemplo.

Pode parecer triste que, em pleno seculo XX, em vez de razões, a favor de qualquer cousa, nós procuremos primeiro nomes proprios, parecendo voltar ao regimen antigo em que o essencial era a palavra dos mestres. Mas infelizmente muitos se recusam a acceitar certas idéas, emquanto não se lhes prova que homens eminentes adheriram a ellas. Por isso, vale a pena, tratando do Esperanto, começar por atirar-lhes em cima, alguns nomes de peso, em todos os ramos dos conhecimentos humanos.

Felizmente, elles não faltam. Quando se ouvem objecções que se presumem doutas sobre a possibilidade de uma lingua internacional, ha sempre o desejo de perguntar a esses sabiosinhos de meia-tijella, si elles conhecem ao menos de nome Max Müller e Michel Bréal. São homens que não fizeram outra cousa durante sua vida sinão estudar a sciencia das linguas. Max Müller é morto. Sua obra foi, porem, colossal e subsiste ainda hoje. Conhecia, alem das linguas classicas e dos da Europa contemporanea, as da India antiga, das quaes a mais celebre é o sanskrito. Era, de mais a mais, um espirito de philosopho.

Pois bem: Max Müller proclamou que se podia perfeitamente fazer uma lingua internacional, lingua artificial e por isso mesmo simples, flexivel e sonora. Declarou a esse proposito que não conhecia tentativa alguma superior ao Esperanto.

Michel Bréal, que é outro linguista notavel, o systematisador de uma verdadeira sciencia nova, a Semantica, também affirmou categoricamente essa possibilidade, embora achasse preferivel outra solução.

Antes de saber qual era essa outra solução, mencionar é que tambem esse homem notavel, que deve entender mais de linguas do que qualquer de nós, não descobre uma impossibilidade na instituição e diffusão de uma lingua internacional artificial.

E si fosse preciso ir pedir a outros dominios da sciencia grandes nomes, parece que a chimica, não tem nenhum maior que o de Berthelot; parece que a medicina não tem maior que o de Bouchard. São homens que têm raros emulos de igual valor; mas que não têm competidores que os offusquem.

Pois bem: esses homens já foram alem da simples adhesão theorica: estão na da propaganda activa.

Ainda uma vez é o caso de lembrar aos que têm medo de comprometter a sua chocha e inutil gravidade, que já podem se esconder por traz de grandes nomes de homens de alto valor.

Esses homens comprehenderam que uma lingua internacional é o complemento fatal da facilidade de communicações cada vez maior entre os diversos povos.

Já se tem muitas vezes mostrado que pouco adianta o poder se percorrer hoje, em algumas horas, numa viagem em caminho de ferro tres ou quatro paizes distinctos, si em cada um delles se falla uma lingua nova que não entendemos. Pouco adianta a reunião frequente de congressos internacionaes si os membros delles tem cada vez mais uma dificuldade maior em se entenderem.

Na ultima exposição internacional de Paris, em 1900, se deu um facto que ficou celebre: em um congresso de naturalistas um norueguez para ser um pouco mais entendido fez um discurso em inglez. Esse discurso foi logo após resumido em francez por um allemão. Calculem esta viagem; uma exposição em inglez, feita por um norueguez e traduzida para francez por um allemão!

Assim este e outros muitos factos que o conferencista cita, mostram a incontestavel vantagem de uma lingua commum que sirva ao commercio, á sciencia e á diplomacia.

Aliás os accordos entre as nações têm sido nesses ultimos tempos tantos e tão variados que se pode dizer que já ha verdadeiras linguagens internacionaes, como por exemplo o codigo de signaes maritimos, que com quatro bandeiras permitte formar 78.642 signaes. Mas é uma lingua de gestos; os dois commandantes podem depois nem se entender si se encontrarem sem as bandeirolas. Mas só gestos não bastam. Contam, e o orador repetiu, uma historia de dois sujeitos que tinham tido a pretenção de se entender por meio de gestos. Eram dois homens do povo, dos quaes um fôra soldado.

O primeiro levantou um dedo para o alto. O soldade replicou-lhe, apontando-lhe para a terra. O primeiro fez um gesto de assentimento e apontou para o soldado. O soldado apontou tambem para elle mas com dois dedos. O primeiro voltou a sorrir, achando justa a resposta e alargou os dois braços, com as mãos espalmadas. O soldado avançou então para elle e começou a bater-lhe. Tiveram de o arrancar dalli. Mas o interlocutor batido achou que elle havia ganho a aposta e pagou-lhe o que era devido.

Os dois se apartaram e cada um contou então aos circumstantes o que tinha entendido e o que tinha dito.

O soldado explicava: elle apontou para o alto, como a significar que eu merecia ser enforcado. "E tu enterrado!" - disse-lhe eu, apontando para a terra. Não contente com o primeiro desafôro, mostrou um dos meus olhos para exprimir que era capaz de m'o arrancar. Eu lhe repliquei logo: "E eu te arranco os dois!" Por fim, elle abriu os braços, mostrando que devia ser crucificado. Então não pude mais conter: cahi-lhe em cima, de bordoada, que era o que elle estava a precisar. E tanto elle reconheceu que eu tinha razão que me pagou a aposta.

Ora, durante esse tempo, o outro estava também contando a conversa: Apontei, dizia elle, para o alto afim de lher dizer: "Deus creou o céu". Elle me respondeu muito bem; mostrando o chão, para completar meu pensamento: "e tambem a terra". "Creou a ti", voltei eu, apontando-o com um dedo; "a nós dois" emendou o soldado, sempre sagaz, indicando-me com dois dedos. Abri então os braços para exprimir, que apezar disso, o Senhor tinha sido crucificado. O soldade quiz então me lembrar que além de crucificado o Senhor fora açoitado. E começou a bater-me. Acho que não precisava dar-me com tanta força; mas evidentemente foi habil. Por isso lhe paguei a aposta.

Eis ahi como os dois julgavam se ter entendido! Cada um tinha dito, cada um tinha comprehendido cousas muito diversas.

Mas ninguem propõe que se adopte uma linguagem de gestos, para uso das relações internacionaes.

II

As propostas até hoje feitas dividem-se em tres grupos: resurreição de alguma lingua morta, convenientemente simplificada, escolha de alguma das linguas vivas usadas correntemente ou, por fim, creação de uma lingua artificial.

A primeira idéa já foi muito applaudida. Perguntavam os seus propugnadores: si o latim foi uma verdadeira lingua internacional durante tantos seculos e si elle, ainda hoje, é exigido em quasi todos os programmas de ensino, porque não o adoptar?

Mas desde logo se deve notar este facto. E' verdade que até o seculo XVIII, quando um homem de sciencia queria escrever de modo a ser comprehendido por todos os sabios de outros paizes, escrevia em latim. Si, porém, ao passo que as relações internacionaes foram augmentando, elle foi decahindo, isso prova a sua incapacidade para preencher aquela função. Não se comprehende que todos o abandonassem, exactamente quando, augmentando as relações entre os diversos povos, elle se tornava mais necessario. Porque o deixaram? Porque era difficil e insufficiente. Seu vocabulario não correspondia ás necessidades da sciencia, da industria, etc., em summa, todas as idéas modernas. E' bem claro que os romanos não podiam ter palavras reservadas para todas as descobertas, invenções, productos e noções diversas, dos innumeros seculos que surgiram depois que elles desappareceram.

De mais, o latim é uma lingua difficilima, tão difficil, que figura nos diversos programmas de ensino da Europa, como materia que deve ser estudada de cinco a nove annos. E ninguem a sae falando. Ninguem - ou quasi ninguem.

E' verdade que os autores de projectos de resurreição propunham logo simplificações numerosas. Mas para essas simplificações serem bastantes, precisavam alterar de tal modo a estructura da lingua que faziam de facto uma lingua inteiramente diversa. Era necessario alterar o vocabulario e modificar completamente a grammatica. Nesse caso a sciencia dos que soubessem o verdadeiro latim, longe de ser uma vantagem, era uma atrapalhação. O que primeiro havia a pedir-lhes era que se esquecessem de tudo o que haviam aprendido.

Tudo isto prova quanto o plano era impraticavel. Ou se conservava o latim antigo e elle precisa de 5 a 9 annos para ser bem sabido e é tão insufficiente que teve de ser abandonado; ou se remodela inteiramente o vocabulario e a grammatica dessa lingua e nesse caso, o que de facto se dá é a creação de uma nova lingua, perfeitamente artificial. E' um aleijamento systematico; é uma parodia burlesca do latim dos autores classicos.

Depois, é positivamente falso que haja muito quem saiba latim. Fazer exame e saber são cousas diversas. Todos os medicos e todos os doutores em direito da America e da Europa fazem exame de latim. Quantos seriam capazes de entender obras nessa lingua? Meia duzia.

Depois a questão de pronuncia no latim é importantissima. Cada povo a profere como póde ou como quer. Mas porque não adoptar uma das linguas modernas. Bréal propoz fazerem accôrdo entre a França e a Inglaterra, pensando que os demais povos se sujeitariam ao dominio linguistico desses dous povos. Não é crivel que as outras nações se sujeitassem, perdendo muito, muitissimo no seu valor industrial, comercial, scientifico e mesmo litterario.

Depois, que lingua escolher? Não ha nenhuma lingua natural que não seja difficil. Não ha nenhuma que para ficar bem sabida não peça um a dous annos.

Em geral os que se lembram essa solução pensam ou no inglez ou no francez.

Os partidarios do inglez lembram que hoje no mundo ha cerca de 120 milhões que o fallam. Mas restam 80 que fallam o alemão; 85 que fallam russo; 52 que fallam o francez e ha ainda o italiano, o hespanhol, o portuguez ... O inglez se tem difundido de um modo extraordinario. Mas é preciso notar que elle não póde continuar indefinidamente a progressão em que tem vindo. O mundo tem limites. Pouco resta a descobrir e a conquistar - e é necessario contarmos com o desenvolvimento de nações da Europa, como a Russia, ou da America, ou mesmo do Brasil.

A grammatica ingleza é facil mas ha outros idiotismos e a pronuncia que a tornam difficilima. E no emtanto uma lingua internacional precisa ser facilima.

Acham alguns que é impossivel fabricar uma lingua, como ja se achou que era impossivel fazer em laboratorio productos organicos. E no emtanto são feitos.

Na chimica mesmo, toda a nomenclatura - sem a qual é impossivel o seu estudo - foi fabricada por congressos internacionaes, que a aperfeiçoam e augmentam. Na industria tambem, os termos internacionaes tornam-se cada vez mais communs.

Mas ha mais. Quando nós adquirimos pelo estudo uma lingua estrangeira, é com perfeita consciencia que a vamos aprendendo de principio a fim,

Para nós o inglez, o allemão, o sueco, qualquer outro idioma é tão artificial como o Esperanto. Si o Brasil estivesse ainda por descobrir, como em 1500, e aqui chegasse uma expedição de esperantistas, falando o Esperanto, como é que os selvagens saberiam si se tratava de uma lingua natural ou artificial? De modo algum. Aprendel-o-iam apenas mais facilmente que o portuguez.

Á excepção da lingua materna, todas as outras são para nós artificiaes.

Mas para os que negam a possibilidade de uma lingua artificial ha um argumento positivo: Ella ahi está. Já houve dous congressos do Esperanto, lingua que tem literatura, para onde já foram traduzidas as mais importantes obras litterarias, a Eneida, Hamlet, D. Juan e Paulo e Virginia. A prova ficou feita.

Feita com factos, que mais do que palavras...

O esperanto não pretende desthronar nenhuma das linguas existentes. Elle não espera se substituir a nenhuma. O que se quer é que cada pessoa, além da sua propria lingua, estude esse idioma internacional, para poder entrar em communicação com os outros povos. Para a sciencia, para o commercio, para as viagens, nada será mais proveitoso. E certamente quanto mais os povos se entenderem, mais o espectro das guerras se afastará da humanidade.

Outros oradores, dos que tem feito a série de conferencias do Brazila Klubo, já terão exposto o mecanismo do esperanto. Alguem já disse que o seu auctor, o Dr. Zamenhof, não inventou nada; descobriu uma lingua internacional que já existia feita, no meio das outras linguas.

De facto, para escolher o seu vocabulario Zamenhoff procurou as palavras mais internacionais. Si um certo vocabulo era mais ou menos identico em cinco linguas, elle o escolhia de preferencia a outro que significando a mesma ideia só tivesse identidade em duas ou tres. E' por isso que qualquer pessoa abrindo um texto em esperanto, conhece logo pelo menos metade das palavras; isto succede aos francezes, aos inglezes, aos allemães, aos russos, aos italianos e a todos os povos da Europa e da America. E fica-se admirado de que já houvesse tantas palavras internacionaes.

E' bom dizer que Zamenhoff não se poude cingir unicamente a esse processo, porque, do contrario, o allemão e o russo, quasi não teriam representação alguma na nova lingua e era preciso contentar um pouco a todos. A maravilha é a justa proporção com que o Dr. Zamenhoff fez isso.

O vocabulario era de facto o essencial, porque, no fim de contas, uma grammatica, por mais complicada que fosse, desde que não tivesse excepções, seria facilmente aprendida. Mas Zamenhoff tambem andou de uma em uma procurando o que nellas havia de mais simples, para fazer uma grammatica ideal. O resultado foi que a do Esperanto se aprende em uma hora. Cabe toda inteira em um cartão postal. São apenas 16 regras e todas sem excepções.

Zamenhoff viu por exemplo que em inglez os verbos não variam nas tres pessoas do plural de cada tempo. Em francez, como em portuguez, é frequente que duas ou mais pessoas do mesmo tempo sejam identicas. Não há, entretanto, confusão possivel, porque o sujeito a evita. Quando se affirma: eu quiz ou elle quiz, é o sujeito que indica a pessoa. Em francez é sempre assim para a 1a. e a 3a. pessoa do singular: J'aime, tu aimes, il aime. Em inglez para todas as do plural. Isso prova que havendo o pronome ou o sujeito a variação das terminações é dispensavel.

O resultado desse exame foi que o esperanto poude constituir uma conjugação unica, que tem apenas 12 terminações. Com essas doze terminações conjugam-se todos os verbos possiveis e imaginaveis.

Todos sabem como, no estudo das linguas, o capitulo dos verbos é geralmente terrivel. Constitue uma difficuldade extraordinaria. Tome-se, por exemplo, a lingua estrangeira que nós mais estudamos: o francez. Para saber os verbos é necessario conhecer 310 terminações dos regulares, 1775 dos irregulares e cerca de 200 dos aŭiliares o que dá o bonito total de 2265 terminações. Entre esse numero e o numero 12 hão de convir que a differença é formidavel!

Mas o esperanto, a todos os momentos, está preparando a nossa memoria. Por isso mesmo, com um pequeno numero de radicaes pode fazer um numero consideravel de palavras.

Em todas as linguas ha prefixos e suffixos. Mas o uso delles não é regular. Nós temos por exemplo o prefixo in para significar o contrário: fallivel, infallivel; grato, ingrato; constante, inconstante. Si toda a lingua fosse construida assim, seria um allivio enorme para a memoria. Mas ha apenas cento e poucos adjetivos, em que se empregue aquella formação, ao passo que ha dezenas de milhares de adjectivos, que formam os seus contrarios de outro modo. Em esperanto, não. Os prefixos e sufixos podem sempre ser empregados. O prefixo mal quer dizer contrario. Não ha, portanto, nunca em esperanto antonymos differentes. Não precisamos uma palavra para grande e outra para pequeno, uma para forte e outra para fraco, uma para abrir e outra para fechar. Si eu sei que granda é grande, malgranda é pequeno; forta é forte; malforta é fraco; fermi é fechar; malfermi é abrir. Sabendo um simples prefixo de tres letras a gente se dispensa de saber milhares de palavras, porque, assim que tenho um termo qualquer posso logo dizer o seu contrario.

Com os suffixos succede a mesma cousa. Si eu sei que in é o sufixo que indica o feminino e id quer dizer filho dispenso-me logo de saber milhares de outras palavras. Sei que si patro é pae, patrino é mãe, frato - irmão, fratino - irman. Sei os femininos de todos os animaes, não precisando aprender sinão um nome para obter tres. Em portuguez ou francez ou outras linguas, ha gallo, gallinha e pinto, ha boi, vacca e bezerro, ha cavallo, egua e pôtro ... Em esperanto si eu sei que boi é bovo, sei logo que bovino é vacca e bovido é bezerro, ĉevalo é cavallo, ĉevalino é egua, ĉevalido é pôtro, koko é gallo, kokino é gallinha, kokido é pinto. Depois é bom não esquecer que em portuguez não há termos próprios para o feminino de quasi todos os animaes. Precisamos empregar um pouco brutamente as designações macho e femea: avestruz, elephante, jacaré macho ou femea. Em outras línguas, chega-se até a um circumloquio um tanto comico. Os inglezes dizem um elle-urso uma ella-urso. porque não tem termos proprios para os dois sexos.

O esperanto resolveu o problema de um modo geral e completo, com um simples suffixo. E desde logo para que dar um genero cousas que são nem masculinas nem femininas? Por que a mentira é feminina e o mar masculino em portuguez quando em francez le mensoge é masculino e la mer feminino? Não ha razão alguma. Por isso mesmo, muitas palavras tem mudado de genero, no correr dos tempos. Camões falla na planeta. Nós dizemos os planetas. Tão absurda é uma cousa como outra. Em esperanto o artigo la concorda com todas as palavras; todas sem excepção. Quando algum indica um sêr do sexo feminino, o suffixo lá está para o dizer.

Si eu estou chamando a attenção para este ponto, é para explicar como se pode aprender o esperanto em um ou dois mezes; como se fica sabendo a sua grammatica em alguns minutos. Quando se diz isto a alguem, parece que se está exaggerando. Que a lingua é de uma pobreza inacreditavel ou a affirmação é mentirosa. A lingua é riquissima, exprime todas as ideias; mas não precisa para isso sinão de um numero de palavras infinitamente menor que a de qualquer das linguas vivas. Em vez de 2.265 terminações verbaes eu preciso apenas de 12. Desde que conheço um adjectivo, sei logo o seu contrario, e graças aos 26 suffixos e aos 9 prefixos posso dar á ideia todas as nuances possiveis. Mais ainda. Como em esperanto todos os substantivos terminam em o, todos os adjetivos em a, todos os adverbios em e, todos os infinitivos de verbos em i, si me dão um radical qualquer eu posso immediatamente formar com elle todos esses termos. Si se diz a um estrangeiro o que quer dizer a palavra saúde elle não pode prever como será o adjectivo que exprime sadio, o adverbio que exprime sadiamente, nem o verbo sanear, nem, em summa os outros termos que derivam desses e os que querem significar ideias oppostas molestia, doentio, doentiamente, adoecer, etc.

Em esperanto, si se entrega a sua grammatica a alguem, grammatica que tem apenas 16 regras e si se diz a essa pessoa que o radical de saúde é san, esse alguem pode immediatamente escrever cerca de 50 palavras derivadas daquelle radical. As regras são simples, claras, infaliveis. Não comportam excepção alguma.

Ora, ha, como esse, varios radicaes igualmente prolificos. Deem 20 a qualquer pessôa e ella terá á sua disposição 1.000 palavras. E' essa multiplicação maravilhosa, que torna o esperanto tão facil de aprender e no emtanto tão rico, tão variado, tão preciso.

Mas ha no espirito de algumas pessôas uma duvida: como obter a unidade de pronuncia? Não ha exemplo do latim, cuja pronuncia se alterou em todos os povos, de modo a que cada um o lê de maneira radicalmente diversa dos outros?

A duvida é até certo ponto legitima.

Por isso, forçado recentemente a ir á Europa, eu tinha grande curiosidade de ouvir, no Congresso de Genebra, esperantistas de diversas nacionalidades exprimirem-se no novo idioma.

Fui e ouvi. Ouvi russos, dinamarquezes, allemães, suecos, inglezes, hespanhóes, italianos, rumaicos, francezes ... Ouvi e entendi. Todos como eu ouviam, todos como eu entendiam.

O exemplo do latim nada tem que vêr com o Esperanto - exactamente porque este ultimo é uma lingua artificial e, portanto, a sua pronuncia foi estabelecida de um modo definitivo, sempre igual, obedecendo a regras de uma simplicidade perfeita. O mesmo não acontece em latim.

Demais, em esperanto cada lettra tem sempre um som, o mesmo som onde quer que esteja. Não ha palavras homophonas e homographas.

Em portuguez nós temos por exemplo os substantivos côro (côro de vozes), couro, os verbos córo e corro. São palavras quasi identicas. Divergem apenas pelo r simples ou dobrado, e pela accentuação da vogal o. Si, portanto, alguem me diz corro em vez de côro, ou côro em vez de couro, pode atrapalhar-me.

Em esperanto não ha palavras que divirjam só pelo accento. Não ha lettras duplas. A palavra coração se traduz por koro, que se lê côrro. Mas se alguem se engana e diz côro, ou córo, ou corrô, eu sinto que ha um erro nessas pronuncias, mas não posso confundir com nenhuma outra palavra.

Aliás admittindo a possibilidade desses erros, eu estou exaggerando de proposito, para mostrar que mesmo no caso de grandes erros os esperantistas se entenderiam. Mas esses erros não se podem dar, desde que todas as lettras tem sempre o mesmo som, desde que todas as palavras tem o accento tonico na penultima syllaba, não ha razão para que ninguem erre. Evidentemente ha o sotáque especial de cada povo - como há o sotaque brasileiro aqui do Rio e ha o de S. Paulo que está a algumas horas de distancia d'aqui. Isso não embaraça a comprehensão. O parisiense diz Paris com um r guttural, o marselhez diz Paris com um r doce e uns e outros se entendem.

Mas para que discutir possibilidades, quando nós temos certezas? Os dois congressos internacionaes de Esperanto provaram que essa lingua é intelligivel á primeira audição entre individuos de nacionalidades as mais diversas.

*

Isso prova que a maldição, que ficou traduzida no velho mytho da Torre de Babel, ha de um dia se acabar. O facto de se haver inventado essa fabula grotesca, prova pelo menos que os homens sempre consideraram a impossibilidade das línguas, como uma verdadeira calamidade. Era uma barreira, era um impecilho para a fraternidade humana.

Uma língua internacional, feita especialmente para a approximação dos homens, será mais um passo para essa fraternidade. Sem dúvida, por si só, ella não fará cessar as luctas e as rivalidades. Mas quanto mais nós comprehendemos as fatalidades que levam os outros a agirem num ou n'outro sentido, mais temos propensão para perdoal-os.

Há em cada lingua uma especie de alma, feita dos sentimentos e pensamentos que ella serve mais habitualmente para traduzir. Não vae nisto uma simples metaphora. Quanto mais vezes um povo se occupa com uma idéia, maior numero de palavras sabe crear para a exprimir. A lingua latina tem um vocabulario bellicoso, extraordinariamente rico. Era um povo guerreiro. O vocabulario que se refere a todas as cousas de belleza e arte é inexcedivel na lingua italiana. Cada auctor que quer exprimir um pensamento já enunciado por seus antecessores tem o desejo de variar-lhe a forma - e faz metaphoras novas e crea palavras e desvias as antigas de suas accepções anteriores. Assim, os pensamentos que mais vezes são expressos nos diversos povos, porque mais ahi são apreciados; os sentimentos, que formam do seu caracter, revelam-se na lingua pela riqueza e colorido que o vocabulario adquire para a manifestação desses sentimentos, para a traducção dessas ideias.

E' isso que vae dar ao Esperanto a sua belleza futura. Lingua creada para a concordia, lingua creada para a expressão de ideias de fraternidade, que devem ser entendidas por diversos povos, ella já tem e cada vez mostrará mais, uma belleza superior, feita exactamente dessas altas preoccupações.

Por isso me parece que todos que desejam contribuir para esse grande ideal futuro, estão na obrigação de concorrer para a sua diffusão, aprendendo-a e divulgando-a.

Foi o que eu vim fazer aqui. Perdoem-me o que me faltou de eloquencia, lembrando apenas o fim que eu tinha em vista.

Esta conferencia não foi revista pelo autor.


(*) De acordo com a ortografia e regras de pontuação da época. Publicado na "Brazila Revuo Esperantista" de abril e maio de 1907.

(**) Sobre a palestra acima, assim noticiava a Brazila Revuo Esperantista de abril de 1907, pag. 8: "De tiu tempo antaŭen, Brazila Klubo penadis por la progresoj de la bela lingvo, malfermante kursojn, kaj farigante paroladojn. La lasta parolado de Brazila Klubo, estis farata de la eminenta literaturisto Medeiros e Albuquerque entuziasme aplaŭdita de pli ol 800 personoj, kiuj tute plenigis la grandegan salonon de Asocio de Komercoficistoj. La titolo de la parolado estis "De Babelo ĝis Esperanto" kaj malgraŭ la tiel longa vojaĝo, la parolinto altiris ĉiam la atenton de l' aŭdantaro, ĉarmigita de lia neimitebla savoir dire". Infelizmente, não há informação sobre a data da palestra, que, provavelmente, deve ter ocorrido em setembro de 1906.

(***) Medeiros e Albuquerque foi escritor, deputado federal e fundador da Academia Brasileira de Letras. É de sua lavra o segundo artigo sobre o esperanto publicado na imprensa brasileira, em 15 de abril de 1898, na "Revista Brasileira". Foi Presidente por um ano do Brazila Klubo-Esperanto, compareceu ao 2º Congresso Universal de Esperanto, em Genebra e, sempre que podia, comparecia a eventos esperantistas na cidade do Rio de Janeiro.

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