Kultura Kooperativo de Esperantistoj
Esperanto

Portugala Lingvo
Desde 05/07/2002
22509 visitas.

KKE » Prosa e Poesia » Crônicas » O Passáro Noturno

O Passáro Noturno

Era uma vez um lenhador que vivia numa cabana no coração da floresta. Ao final do árduo trabalho do dia, costumava meditar recostado ao tronco de um carvalho secular e dali contemplar o céu faiscante de estrelas.

Um anoitecer, estando em seu posto habitual, o lenhador viu pousar no ramo mais alto da árvore um pássaro desconhecido de rara beleza, cujo perfil destacava-se, nítido, contra o céu prateado. Mais surpreendido ficou quando a ave entoou seu cântico melodioso lembrando o som pura de uma flauta. E, prodígio maior, o canto da ave podia ser compreendido pelo homem. Na linguagem humana, o significado da melodia traduzia a seguinte mensagem:

- Sou o mensageiro noturno. Habito junto ao trono do Altíssimo e só desço à terra quando vejo brilhar na aura humana a chama inconfundível do Amor. Ela anuncia que o coração do homem está pronto para iniciar a viagem espiritual. Venho trazer-te a recordação de tua origem divina, lenhador. A nostalgia que sentes contemplando os astros perdidos na imensidão é a lembrança que a tua alma guarda das regiões onde habitavas antes de desceres na Matéria. Queres conhecer tua pátria verdadeira, o Reino da Luz?

- Sim! Respondeu o lenhador cuja alma sensível se sentia oprimida pelo escafandro do corpo físico. Que devo fazer?

- Deves passar pela dor e pelo sofrimento sem maldize-los. Deves te libertar do jugo das paixões desordenadas. Após esta morte na cruz, voltarei com novas instruções.

O canto eloqüente silenciou. O pássaro revoluteou em torno do homem e da árvore, depois alçou vôo perdendo-se nas alturas.

O tempo passou. Machado às costas, o lenhador encaminhava-se todos os dias para o trabalho. No seu íntimo, porém, uma grande transformação se operava. A promessa do Mensageiro não lhe saía da lembrança. Seguia as instruções recebidas crescendo em renúncia e sabedoria sem se dar conta. Afinal, o mensageiro tão ansiado retornou. Trazia no bico uma cruz de ouro que depositou nas mãos rudes do lenhador.

- Eis a tua recompensa. Venceste a prova da cruz. Queres prosseguir?

- Oh, sim. Que devo fazer agora? apressou-se a perguntar.

- Tens que elevar tua mente a planos mais sutis, expandindo tua consciência de modo a descobrires as potencialidades divinas que abrigas em teu ser. Tens que adquirir equilíbrio interno para que a Divindade possa atuar na tua alma. Quando atingires este estágio, eu voltarei.

Feitas as evoluções rituais, lançou-se ao espaço desaparecendo na vastidão da floresta.

Agora, uma chama mais alta e poderosa ardia no coração do lenhador. Cultivou com ardor as novas virtudes, tornando-se desapegado e confiante. Aprendeu a rejeitar pensamentos mesquinhos, substituindo-os por pensamentos de concórdia e fraternidade. À medida que prosseguia em sua ascese, passou a perceber a proteção de seres invisíveis que o visitavam com freqüência.

Certa noite, quando a quietude da floresta era profunda, o canto inconfundível se fez ouvir. Desta vez, o pássaro trazia no bico uma estrela cintilante.

- Venceste mais uma etapa, peregrino do Caminho, cantou o mensageiro. Queres prosseguir?

- Tudo que desejo é alcançar a pátria distante, retrucou o lenhador. Garantida minha cidadania celeste, voltarei à Terra para ajudar outros peregrinos.

- Falas com sabedoria. Na medida em que seguires tua estrela guia, tua luz aumentará e te libertará do cativeiro. Procura Amar e Servir. Quanto tiveres praticado suficientemente estes dois ensinamentos, voltarei a estar contigo.

Mais uma vez o pássaro circundou o lenhador com o vôo de proteção e rumou para o infinito.

De posse da estrela cintilante, o lenhador já não conseguia guardar só para si a ventura de que estava possuído. Percebendo na aura de outros lenhadores a mesma cruz tímida e luminosa que atraíra para ele o mensageiro das alturas, ensinou aos companheiros como trilhar as primeira etapas do Caminho. Com tanto empenho se dedicou à tarefa que olvidou por completo a ânsia de partir. Quando, numa noite serena, ouviu o canto familiar ficou surpreso. Como o tempo passara rápido! Das outras vezes, ele se escoara muito, muito lentamente. Agora, um acelerador invisível o adiantara. Encaminhou-se para o carvalho e viu a ave descendo em sua direção com uma coroa radiante presa ao bico. Jamais a floresta ouviu canto tão mavioso como nessa noite. O mensageiro cantou:

- A coroa é o símbolo da mais alta realização humana. Merecestes a coroa porque aprendestes tudo dar e nada reter. Esquecestes a tua personalidade humana para te tornares o Servidor. Alcançastes o amor impessoal, o inegoísmo, a ação desinteressada e a compaixão. És um Ungido, um ser coroado. A Pátria em festa aguarda o teu regresso.

- Mensageiro alado, quando me visitastes pela primeira vez desejei ardentemente regressar à pátria perdida. Por isto me lancei com tanto êxito na busca da perfeição. Quando voltastes com a Cruz e a Estrela me senti estimulado a acelerar minha libertação. Mas, ao conquistar a Coroa servindo a meus irmãos, já não sinto forças para abandoná-los Não te posso acompanhar ainda. Quero que leves, porém, para o reino distante de onde vens, o único bem que possuo, já que sempre trouxestes uma dádiva ao me visitares.

O pássaro aquiesceu com um trinado de júbilo e, tendo tomado no bico o coração do lenhador, lançou-se ao espaço rumo ao trono do Altíssimo, em cujos pés depositou a relíquia palpitante transformada no mais puro diamante.

Original em Português Original em Português: Maria Luiza de Andrade.
Esperanto-Versio Versão em Esperanto: Aloísio Sartorato.

[Voltar]