Era uma vez um lenhador que vivia numa cabana no coração da floresta. Ao final do árduo trabalho do dia, costumava meditar recostado ao tronco de um carvalho secular e dali contemplar o céu faiscante de estrelas.
Um anoitecer, estando em seu posto habitual, o lenhador viu pousar no ramo mais alto da árvore um pássaro desconhecido de rara beleza, cujo perfil destacava-se, nítido, contra o céu prateado. Mais surpreendido ficou quando a ave entoou seu cântico melodioso lembrando o som pura de uma flauta. E, prodígio maior, o canto da ave podia ser compreendido pelo homem. Na linguagem humana, o significado da melodia traduzia a seguinte mensagem:
- Sou o mensageiro noturno. Habito junto ao trono do Altíssimo e só desço à terra quando vejo brilhar na aura humana a chama inconfundível do Amor. Ela anuncia que o coração do homem está pronto para iniciar a viagem espiritual. Venho trazer-te a recordação de tua origem divina, lenhador. A nostalgia que sentes contemplando os astros perdidos na imensidão é a lembrança que a tua alma guarda das regiões onde habitavas antes de desceres na Matéria. Queres conhecer tua pátria verdadeira, o Reino da Luz?
- Sim! Respondeu o lenhador cuja alma sensível se sentia oprimida pelo escafandro do corpo físico. Que devo fazer?
- Deves passar pela dor e pelo sofrimento sem maldize-los. Deves te libertar do jugo das paixões desordenadas. Após esta morte na cruz, voltarei com novas instruções.
O canto eloqüente silenciou. O pássaro revoluteou em torno do homem e da árvore, depois alçou vôo perdendo-se nas alturas.
O tempo passou. Machado às costas, o lenhador encaminhava-se todos os dias para o trabalho. No seu íntimo, porém, uma grande transformação se operava. A promessa do Mensageiro não lhe saía da lembrança. Seguia as instruções recebidas crescendo em renúncia e sabedoria sem se dar conta. Afinal, o mensageiro tão ansiado retornou. Trazia no bico uma cruz de ouro que depositou nas mãos rudes do lenhador.
- Eis a tua recompensa. Venceste a prova da cruz. Queres prosseguir?
- Oh, sim. Que devo fazer agora? apressou-se a perguntar.
- Tens que elevar tua mente a planos mais sutis, expandindo tua consciência de modo a descobrires as potencialidades divinas que abrigas em teu ser. Tens que adquirir equilíbrio interno para que a Divindade possa atuar na tua alma. Quando atingires este estágio, eu voltarei.
Feitas as evoluções rituais, lançou-se ao espaço desaparecendo na vastidão da floresta.
Agora, uma chama mais alta e poderosa ardia no coração do lenhador. Cultivou com ardor as novas virtudes, tornando-se desapegado e confiante. Aprendeu a rejeitar pensamentos mesquinhos, substituindo-os por pensamentos de concórdia e fraternidade. À medida que prosseguia em sua ascese, passou a perceber a proteção de seres invisíveis que o visitavam com freqüência.
Certa noite, quando a quietude da floresta era profunda, o canto inconfundível se fez ouvir. Desta vez, o pássaro trazia no bico uma estrela cintilante.
- Venceste mais uma etapa, peregrino do Caminho, cantou o mensageiro. Queres prosseguir?
- Tudo que desejo é alcançar a pátria distante, retrucou o lenhador. Garantida minha cidadania celeste, voltarei à Terra para ajudar outros peregrinos.
- Falas com sabedoria. Na medida em que seguires tua estrela guia, tua luz aumentará e te libertará do cativeiro. Procura Amar e Servir. Quanto tiveres praticado suficientemente estes dois ensinamentos, voltarei a estar contigo.
Mais uma vez o pássaro circundou o lenhador com o vôo de proteção e rumou para o infinito.
De posse da estrela cintilante, o lenhador já não conseguia guardar só para si a ventura de que estava possuído. Percebendo na aura de outros lenhadores a mesma cruz tímida e luminosa que atraíra para ele o mensageiro das alturas, ensinou aos companheiros como trilhar as primeira etapas do Caminho. Com tanto empenho se dedicou à tarefa que olvidou por completo a ânsia de partir. Quando, numa noite serena, ouviu o canto familiar ficou surpreso. Como o tempo passara rápido! Das outras vezes, ele se escoara muito, muito lentamente. Agora, um acelerador invisível o adiantara. Encaminhou-se para o carvalho e viu a ave descendo em sua direção com uma coroa radiante presa ao bico. Jamais a floresta ouviu canto tão mavioso como nessa noite. O mensageiro cantou:
- A coroa é o símbolo da mais alta realização humana. Merecestes a coroa porque aprendestes tudo dar e nada reter. Esquecestes a tua personalidade humana para te tornares o Servidor. Alcançastes o amor impessoal, o inegoísmo, a ação desinteressada e a compaixão. És um Ungido, um ser coroado. A Pátria em festa aguarda o teu regresso.
- Mensageiro alado, quando me visitastes pela primeira vez desejei ardentemente regressar à pátria perdida. Por isto me lancei com tanto êxito na busca da perfeição. Quando voltastes com a Cruz e a Estrela me senti estimulado a acelerar minha libertação. Mas, ao conquistar a Coroa servindo a meus irmãos, já não sinto forças para abandoná-los Não te posso acompanhar ainda. Quero que leves, porém, para o reino distante de onde vens, o único bem que possuo, já que sempre trouxestes uma dádiva ao me visitares.
O pássaro aquiesceu com um trinado de júbilo e, tendo tomado no bico o coração do lenhador, lançou-se ao espaço rumo ao trono do Altíssimo, em cujos pés depositou a relíquia palpitante transformada no mais puro diamante.
Original em Português: Maria Luiza de Andrade.
Versão em Esperanto: Aloísio Sartorato.