(BEJO) 1)
1987 foi, sem dúvida, um ano festivo. O esperanto completou cem anos, a BEL oitenta e a BEJO 20. E quando se completa vinte anos, eis um momento apropriado para que, pela primeira vez, se faça um olhar retrospectivo.
No começo, eram cinco jovens no Rio de Janeiro: Alfredo Ênio Duarte, Francisco Wechsler, Jair Salles, Paulo Sérgio Viana e Aloísio Sartorato. Era o ano de 1964 e quase todos os sábados eles se reuniam na sede da Liga Brasileira de Esperanto e também na sede da Cooperativa Cultural dos Esperantistas. Naquela ocasião, entre outras coisas, discutiam entusiasticamente sobre a necessidade de fundar-se uma seção da TEJO no Brasil.
Mas em outro extremo do Brasil, mais precisamente em Fortaleza, o mesmo pensamento veio à cabeça de cinco entusiasmados jovens: Carlos Lima Mello, Francisco Barbosa, Cesar Oliveira Barros Leal e outros dois, cujos nomes não mais me lembro. Aderiu a esse grupo, no ano seguinte, Roberto Passos Nogueira.
Apesar da falta de contato entre os dois grupos, ambos decidiram não fundar logo uma organização jovem brasileira, mas aguardar o então em breve a ocorrer XIX Congresso Brasileiro de Esperanto no Rio de Janeiro para discutir com jovens de outros estados a conveniência dessa iniciativa.
E assim ocorreu. Em outubro/65, os dois grupos encontraram-se durante o congresso e decidiram que o caminho mais adequado, antes de fundar a BEJO, seria organizar grupos locais. Em conseqüência, apareceram os primeiros dois grupos jovens: no Rio, a Juventude Esperantista da Guanabara (GEJ) e em Fortaleza, a Juventude Esperantista do Ceará (CEJ).
Durante dois anos os grupos agiram, ativamente, em seus respectivos territórios, recrutando mais membros. Promoveram palestras sobre o esperanto e organizaram vários cursos em organizações esperantistas e não-esperantistas. E durante esse período, editaram seus próprios boletins num esperanto irrepreensível: “Meteoro”, órgão oficial da Juventude Esperantista da Guanabara e “Verda Maro”, órgão oficial da Juventude Esperantista do Ceará.
Em 1967, os membros dos dois grupos reuniram-se novamente. Desta vez, em Santos Dumont, Minas Gerais, por ocasião do III Seminário de Esperanto da Cooperativa Cultural dos Esperantistas. Após reunião de aproximadamente 30 jovens, vindos de diferentes estados brasileiros, constatou-se que o solo já estava bem preparado e decidiram fundar provisoriamente a BEJO. Todos aprovaram e assinaram o documento conhecido como “Declaração de Santos Dumont” (veja Impulso nº 1) e elegeu-se uma diretoria provisória, que teve como principal tarefa a preparação do estatuto da organização.
No ano seguinte, por ocasião do III Seminário de Esperanto, em Nova Friburgo, a juventude brasileira reuniu-se novamente e decidiu a respeito da fundação oficial da BEJO, aprovando seu estatuto e confirmando a diretoria provisória para um mandato de dois anos: Francisco Wechsler (Presidente), Roberto Passos Nogueira (Vice-presidente das Regiões Norte e Nordeste), Wilson Ferreira Martins (Vice-Presidente da Região Sul), Umberto Ferreira (Vice-presidente para a Região Centro-Oeste), Paulo Sérgio Viana (Secretário-Geral) e Aloísio Sartorato (Tesoureiro).
A sede da BEJO funcionava no Rio de Janeiro, onde existia naquele tempo o movimento local jovem mais forte, e onde residiam três membros da diretoria: Francisco, Paulo Sérgio e Aloísio. A BEJO progredia sem empecilhos. Fundaram-se novos grupos jovens em várias cidades. O órgão oficial “Impulso” surgiu e fez furor, no país e no exterior. A TEJO aceitou a adesão oficial da BEJO.
Os três diretores no Rio estavam plenamente absorvidos em vários trabalhos. Francisco cuidava da revista junto à gráfica (ela estava sob a responsabilidade redacional de Nogueira) e dos contatos internacionais (TEJO, UEA e outros). Paulo cuidava da correspondência nacional, do contato com grupos jovens e da redação de BEbo (Boletim Informativo da BEJO). Eu me responsabilizava-me pelos trabalhos de tesouraria e aŭiliava Paulo na redação do BEbo, além de cuidar de seu arranjo gráfico. Os demais vice-presidentes atuavam, de acordo com as possibilidades, em suas respectivas regiões.
Entretanto, no segundo semestre de 68, ocorreu uma pequena crise na BEJO. Paulo Sérgio, por motivos pessoais, teve de deixar a diretoria e eu, subitamente, passei a acumular também os trabalhos de secretaria e de redação que eram feitos por ele até então.
A situação tornou-se insustentável para mim, porque não era possível fazer ao mesmo tempo o trabalho de duas pessoas. Então, escrevi para Melo, Nogueira e José Mário (de Natal): o movimento jovem no Rio enfraquecera-se, enquanto no Nordeste continuamente progredia (nesse tempo, já haviam ocorrido dois encontros de Esperanto regionais organizados exclusivamente pela juventude!); portanto, chegara o momento para que a parte administrativa da BEJO fosse para as mãos dos nordestinos. E, em 1969, em São Paulo, por ocasião do Seminário de Esperanto que lá ocorria, foi eleita uma nova diretoria da BEJO, cujo presidente tornou-se José Mário Marques, de Natal, secretário-geral Carlos Lima Melo, de Fortaleza, e tesoureiro Iraci Sales Nobre, de Natal. Tornaram-se vice-presidentes: Marcelo Engracia Garcia (Sul), Manoel Floro (Leste), Roberto F. Nogueira (Nordeste) e Waldir Antonio Silvestre (Centro).
A BEJO começou então uma nova fase muito positiva (a “nordestina”). A revista continuava a aparecer. Novos grupos surgiram. Ensinava-se a língua a multidões. Entretanto, os acontecimentos políticos dos anos setenta em nosso país também atingiram o movimento. “Diz-se” que um membro da Juventude Esperantista do Rio Grande do Norte promoveu uma reunião de tendência política na sede esperantista. A polícia de segurança informou-se sobre o fato e vários membros do grupo jovem foram convidados a comparecer à sede da polícia para prestar esclarecimentos (se eles foram torturados, eu não sei, entretanto conjecturou-se sobre isso).
Esse acontecimento esfriou seriamente o entusiasmo dos nordestinos. Pouco a pouco a BEJO agonizou e, finalmente, estagnou completamente.
Somente em 1975, como uma fênix, ela reviveu das cinzas através de um grupo jovem no Rio de Janeiro, sob a liderança de Ciro Gomes de Freitas. Mas isso é outra história, cujos detalhes podem ser melhor contados pela segunda geração de membros da BEJO.
—
Autor: Aloísio Sartorato (Rio Esperantista/out-dec/1988)